Um ano após a morte de Néstor Kirchner, Argentina inaugura mausoléu

Restos mortais de ex-presidente foram sepultados nesta quinta em monumento com cerca de 14 metros construído em sua homenagem

iG São Paulo |

Os restos mortais do ex-presidente argentino Néstor Kirchner (2003 - 2007), marido da presidenta reeleita Cristina Kirchner, foram sepultados nesta quinta-feira, um ano após sua morte, em um mausoléu de Río Gallegos, sua cidade natal na Patagônia, região sul.

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Mausoléu de Néstor Kirchner no cemitério de Río Gallegos, na Argentina

A cerimônia de traslado dos restos mortais do ex-presidente de um túmulo familiar no cemitério de Río Gallegos para o monumento construído em sua homenagem foi realizada nesta quinta com a presença apenas da família e de uma pequena comitiva.

A chefe de Estado, vestida de preto, chegou ao local com seus filhos Máximo, 21 anos, e Florencia, 21, e se retirou com eles sem falar com o público presente nos arredores do cemitério ou com a imprensa. "É um encontro privado e familiar", disse a secretária-geral da Presidência, completando que "a entrada das pessoas que quiserem prestar sua homenagem ocorrerá durante a tarde".

Localizado no fundo do cemitério, o mausoléu cinza em forma de cubo de granito e cimento tem cerca de 14 metros de comprimento. Ele é protegido por grades negras e em seu interior há duas tochas e uma enorme bandeira argentina que balança ao vento da Patagônia, onde Kirchner construiu sua carreira política e onde morreu de uma crise cardíaca aos 60 anos.

Em uma mensagem ao povo argentino, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, citou a "admiração e a gratidão" que tem em relação a esse "insubmisso combatente, um governante exemplar e amigo íntimo".

A secretária-geral da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), a colombiana María Emma Mejía, colocou uma placa em homenagem ao seu antecessor na quarta-feira em Quito, sede do bloco.

A placa elogia a "fecunda e intensa" gestão de Kirchner na Unasul, da qual foi secretário-geral de 4 de maio de 2010 até sua morte, e lembra que "sua mediação foi importante em várias situações de tensão no subcontinente, como no conflito entre Colômbia e Venezuela em julho de 2010".

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A secretária-geral da Unasul, María Emma Mejía, posa junto a uma placa em homenagem a Néstor Kirchner com o embaixador argentino no Equador, Alberto Álvarez
Um ano após sua morte, o legado de Kirchner ainda influencia a política, a economia, e a forma como o governo argentino lida com as questões sociais. Segundo analistas políticos argentinos, sua herança foi decisiva para a reeleição de sua viúva e sucessora.

Kirchner foi definido por aliados e adversários como um político "onipresente" que costumava tomar sozinho ou com a esposa as decisões em todas as áreas do governo. Para o líder do governo na Câmara, deputado Agustín Rossi (Frente para a Vitória), "Kirchner devolveu a autoestima dos argentinos".

Até a oposição reconhece a importância e o legado do ex-presidente. "Kirchner recuperou o papel de presidente no país", disse o opositor Mauricio Macri (PRO), prefeito de Buenos Aires.

Legado ambíguo

Néstor Kirchner assumiu a Presidência em 2003, logo depois da histórica crise de 2001 e 2002, quando cinco presidentes passaram pela Casa Rosada em poucas semanas. "Kirchner fez uma inteligente construção de governo e esperava que o kirchnerismo ficasse 20 anos na Presidência, numa alternância entre ele e a mulher na cadeira presidencial. Mas ele morreu e a morte foi vista (por seus eleitores) como um gesto magnânimo", disse o sociólogo Ricardo Sidicaro, professor da Universidade de Buenos Aires.

Entrevistados pela BBC Brasil, o cientista político Vicente Palermo, pesquisador do Conselho Nacional de Investigações Cientificas (Conicet), e o economista Orlando Ferreres, da consultoria Ferreres e Associados, disseram que o ex-presidente "deixou marcas profundas", mas um "legado ambíguo" na política e na economia argentina. "Kirchner foi decisivo para a recuperação do Estado, mas esse projeto político foi autoritário e concentrador tanto de poder político quanto econômico", disse Palermo.

Para ele, o ex-presidente "relançou" a política argentina e criou uma nova etapa para o peronismo (movimento político fundado por Juan Domingo Perón). Ferreres observou que o ex-presidente governou implementando medidas populares e criando um sistema econômico baseado no aumento do consumo que foi mantido por sua viúva e sucessora, que foi eleita em 2007 e reeleita esta semana.

"A economia registrou forte expansão, mas existiam e existem distorções como a questão da inflação", afirmou. A oposição diz que o índice oficial de inflação perdeu confiabilidade na era Kirchner, porque o dado teria sido "maquiado" por pressão do governo. Um ex-diretor do Indec (instituto oficial de pesquisas) disse à BBC Brasil que o ex-presidente o telefonava para saber antecipadamente o índice de inflação e "reclamava quando era mais alta do que ele esperava".

'Néstor não morreu'

A presidente costuma lembrar que ele (Néstor Kirchner) decidiu pagar a divida do país com o FMI e abrir caminho para a reabertura das causas de crimes cometidos na ditadura (1976-1983). Na sua gestão, o Congresso Nacional aprovou o fim das leis de anistia que estavam em vigor desde 1986 e 1987 no país, o que permitiu que militares acusados de abusos de direitos humanos e tortura fossem levados à Justiça.

A população não esqueceu disso. "Néstor não morreu. Néstor vive", gritaram, na quarta-feira, militantes políticos após a condenação de 16 militares por crimes contra a humanidade. Outra qualidade apontada por analistas - mas que sua sucessora, Cristina, ainda não teria aproveitado - é o seu empenho em construir relações pessoais e conversar com prefeitos e governadores, sindicalistas e líderes das entidades de direitos humanos.

"Existe um ponto no qual os que estiveram perto de Kirchner concordam: a sua capacidade de trabalho. Mas agora muitas das suas funções ficaram vazias, como a relação com os prefeitos e governadores", escreveu a jornalista do La Nación, Lucrecia Bulrich.

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Povo homenageia estátua de Néstor Kirchner em Río Gallegos, Argentina

Já com a oposição havia pouco diálogo, pelo menos essa era uma das principais críticas feitas a Kirchner, acusado de concentrar excessivamente o poder e de promover "capitalismo de compadres" - permitindo, por exemplo, que empresas fossem estatizadas sem abertura de licitação. Setores da imprensa diziam que ele mantinha controle sobre o caixa do governo e que era o "verdadeiro" ministro da Economia.

O crescimento do seu patrimônio pessoal durante sua gestão levanta suspeitas até hoje. Na sua edição desta semana, a revista Notícias publicou reportagem de capa intitulada: "Os negócios que Kirchner deixou e que Cristina quer decifrar", sobre sua contabilidade pessoal.

Com AFP e BBC

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