Último refúgio do Khmer Vermelho oferece seu sinistro passado aos turistas

Jordi Calvet. Anlong Veng (Camboja), 10 jan (EFE).- O último e lendário refúgio do Khmer Vermelho, em Anlong Veng, tira proveito a seu sinistro passado com o turismo, três décadas depois da queda do regime maoísta de Pol Pot.

EFE |

Encravada na fronteira com Tailândia, esta isolada e poeirenta aldeia cambojana foi onde há uma década Pol Pot, Son Sen, Nuon Chea, Jieu Samphan e Ta Mok, "O açougueiro", consumiram seus últimos dias como chefes revolucionários.

De todos eles, seguem vivos apenas Nuon Chea e Jieu Samphan, presos desde 2007 na sede do tribunal internacional que os julga como responsáveis do genocídio de 1,7 milhões de pessoas entre 1975 e 1979, período em que governaram o Camboja.

"Podemos ver a casa de Pol Pot, seu túmulo e a casa de Ta Mok", indica Non, um jovem mototaxista aos visitantes que chegam ao local para ver os vestígios dos últimos khmeres vermelhos.

A chegada de turistas coincide com um incipiente crescimento de Anlong Veng, cujos habitantes até o momento tinham vivido do contrabando e da poda ilegal de árvores, esta última atividade cada vez menos por falta de reservas.

A oito quilômetros do povoado se eleva a cordilheira de Dangkrek que, como um muro, delimita a fronteira com a Tailândia.

No cume, justo antes de atravessar o posto de fronteira, um punhado de barracos rodeados de escombros forma a aldeia de Choam, dedicada quase exclusivamente à prostituição e à venda de tabaco aos vizinhos tailandeses.

É ali que, em 1998, foi incinerado em uma pilha de pneu e tocos de madeiras o cadáver de Pol Pot, quem morreu em 17 de abril de 1998 enquanto estava confinado em uma choça dos arredores da aldeia desde que fora julgado por um júri popular e condenado a viver afastado do resto de seus antigos correligionários.

O Ministério do Turismo colocou no lugar da pira uma chapa metálica, agora meio oxidada, e a qual vai diariamente algum morador que oferece água, chá, incenso e cigarros para oferecer ao espírito do que fora o "Irmão Nº1" do Khmer Vermelho.

De Choam parte um caminho arenoso rodeado de minas que leva até os refúgios que foram habitados pelos dirigentes da antiga República Democrática do Camboja e eram alinhados a poucos metros da fronteira para facilitar a fuga ao país vizinho em caso de perigo.

Um deles pertenceu a Pol Pot e dele se conserva pouco mais que a estrutura queimada e diversas mensagens escritas nas paredes por visitantes.

Um matagal separa a casa de um pequeno hotel-restaurante em meio a escarpas do qual se avista a planície cambojana.

"O proprietário é um ex-soldado de Ta Mok, que se chama Eth", sussurrou assustado Non enquanto olha de lado, para se assegurar de que ninguém mais lhe vira.

"O açougueiro" ainda mete medo entre os habitantes de Anlong Veng, mesmo quase dez anos sua detenção, em 1999, e três da sua morte na prisão.

Sua casa é outro dos locais pouco explorados pelas autoridades, que o transformaram em museu poucos meses após invadir o imóvel e deter "o açougueiro".

No interior ficam murais desenhados por um dos khmeres vermelhos mais sanguinários, embora haja que tenha Ta Mok em não tão má consideração.

Este é o caso da cambojana Son, de 65 anos, que serviu ao último líder e que hoje cobra US$ 12 por mês do Estado para manter limpa a casa-museu.

"Gostava de Ta Mok. Ele me pagava mil bahts (cerca de US$ 28,6 dólares) e me dava comida", disse Son, justo antes de agachar-se para acender alguns bastões de incenso em homenagem ao seu antigo senhor. EFE jcp/jp

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