UE e ONGs estão pessimistas com resultados de reunião em Mianmar

Mianmar - Os delegados europeus e as ONGs esperam poucos resultados da conferência de doadores realizada neste domingo em Yangun, com a participação do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, para analisar a reconstrução de Mianmar (antiga Birmânia), após a devastadora passagem do ciclone Nargis.

Redação com agências internacionais |

Fontes diplomáticas européias consultadas pela Agência Efe na antiga capital birmanesa asseguraram que o encontro será aproveitado pela Junta Militar para "lavarem sua imagem" internacionalmente.

As mesmas fontes disseram que a Junta Militar, que se comprometeu a deixar os voluntários estrangeiros entrarem no delta do rio Irrawaddy, não fará mais concessões e insistirá em dirigir sua maneira a catástrofe, como fez até agora.

O chefe da Junta Militar, o general Than Shwe, se comprometeu com o secretário-geral da ONU, que hoje nas primeiras horas retornou a Yangun de Bangcoc, a desbloquear a entrada de voluntários estrangeiros e da ajuda humanitária internacional.

No entanto, um representante da Unicef, que trabalha em Mianmar desde 1950, advertiu que adotar uma postura dura demais frente aos generais os levará a reafirmarem suas suspeitas das intenções reais da comunidade internacional, à qual acusaram de querer interferir em seus assuntos domésticos.

O Unicef obteve permissão para que seis expatriados viajem na próxima semana para Labutta, uma das cidades mais devastadas pelo "Nargis".

A maioria de Governos dos países da União européia (UE) optaram por enviar apenas seus embaixadores, a maioria vindos de Bangcoc, e observam com receio o protagonismo assumido pela Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), disseram fontes diplomáticas européias.

Mianmar, que ingressou na Asean em 1997, deu após a catástrofe ocorrida nos dias 2 e 3 de maio, o sinal verde ao envio de especialistas em gestão de emergências do bloco regional ao mesmo tempo que vetava o acesso ao delta do rio ao resto de voluntários estrangeiros.

A reunião deve agilizar os envios de ajuda para as vítimas do tufão "Nargis", que deixou pelo menos 134.000 mortos ou desaparecidos e dois milhões e meio de desabrigados.

O regime birmanês calcula que precisará de US$ 11 bilhões para a reconstrução do sul do país.

AFP

Pessoas fazem filas nas estradas para receber alimentos em Mianmar

A Junta Militar de Mianmá, criticada por atrasar uma operação coordenada de ajuda para as cerca de 2,4 milhões de vítimas deixadas desamparadas por causa do ciclone Nargis há três semanas, prosseguiu no sábado, nas áreas atingidas, com um referendo sobre uma constituição preparada pelo Exército.

O comparecimento foi pequeno no delta arrozeiro do rio Irrawaddy e em áreas dentro e nos arredores da antiga capital Yangon, severamente afetada pela tempestade que deixou 134 mil pessoas mortas ou desaparecidas.

Em um aparente recuo para alavancar a ajuda internacional, o líder da junta, general Than Shwe assegurou ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, na sexta-feira, que Mianmar permitiria a entrada de especialistas 'de todas as nacionalidades.'

'Nós não temos mais tempo a perder, então é imperativo que as autoridades de Mianmar forneçam imediatamente à comunidade internacional os detalhes práticos do acordo', disse o chefe da área de assistência da União Européia, Louis Michel.

Ban, que se encontrou com Tan Shwe em sua isolada nova capital, Naypydaw, a 390 quilômetros ao norte de Yangon, afirmou depois esperar que o acordo sobre os especialistas 'possa produzir resultados rapidamente.'

Uma voluntária birmanesa de 39 anos, que retornou do exterior para ajudar nos esforços de assistência, estava cética.

'Eu estou preocupada que o governo aperte as regras depois, porque eles acham que já cederam o bastante', disse ela.

Em Yangon, no sábado, as filas nos locais de votação eram pequenas, uma vez que muitos moradores votaram com antecedência, disseram autoridades. A líder oposicionista presa e ganhadora do Nobel, Aung San Suu Kyi, pôde votar na sexta-feira na casa onde cumpre prisão domiciliar.

No entanto, a votação de sábado terá pouco impacto no destino do referendo, que, segundo críticos, ampliará o domínio dos militares.

A nova Constituição teve aprovação de 92,4 por cento dos votos em 10 de maio, em partes do país que não foram atingidas pelo ciclone.

Crise de fome

A região do sul de Mianmar sofre uma crise alimentícia que pode se estender ao resto do país, e a população local enfrenta ameaças de desnutrição e de uma crise de fome, a menos que receba alimentos de forma imediata.

A advertência foi feita à Agência Efe pela representação em Yangun da ONG francesa Ação Contra a Fome (ACF), uma das poucas agências internacionais de ajuda humanitária que receberam permissão do regime para trabalhar em Mianmar.

Três semanas depois de o ciclone "Nargis" devastar o delta do rio Irrawaddy, de difícil acesso, a enorme destruição e a lentidão na resposta à emergência das autoridades, além do bloqueio de grande parte da ajuda externa, levaram povoados inteiros a não ter recebido ainda alimentos.

"A situação é muito grave, eles precisam de comida com urgência", assinalou Franck Vanetelle, especialista em segurança alimentar da ONG francesa.

Vanetelle lembrou que nos primeiros dias depois da passagem do "Nargis", no povoado de Bogalay, onde 90% das casas foram destruídas, as rações de arroz já tinham se reduzido à metade.

"Os pescadores perderam seus barcos e redes, os camponeses ficaram sem suas plantações e animais, não há alimentos e nem uma forma de obtê-los", explicou Vanetelle.

As crianças são as mais vulneráveis à crise alimentícia, e em dois meses podem começar a morrer por causa do enfraquecimento de seus sistemas imunológicos.

"O primeiro passo é a crise alimentícia, na qual já estamos, depois vem a nutricional, que precisa ser evitada imediatamente, e em seguida há a fome generalizada", comentou o técnico.

Com 2,5 milhões desabrigados, segundo dados das Nações Unidas, uma crise nutricional poderia aumentar ainda mais o número de mortos na tragédia.

A ACF não registrou focos de cólera, dengue ou malária nas zonas onde opera na região devastada pelo ciclone, mas já encontrou os primeiros casos de diarréia severa, que costuma anteceder as epidemias de doenças associadas à água parada.

Vanetelle alertou ainda para o risco de que nos próximos meses a crise alimentícia se estenda ao norte do país, que antes da tragédia era abastecida de cereal e outros alimentos do delta do rio Irrawaddy, a região mais fértil de Mianmar e que já foi a maior produtora de arroz de todo o Sudeste Asiático.

Os próximos dias e semanas serão decisivos no sul de Mianmar para determinar se os agricultores poderão semear suas terras durante a temporada bienal de semeadura, que começa em maio e termina em junho.

"Será muito difícil eles conseguirem, e se não for possível terão perdido esta colheita e também a próxima", afirmou Vanetelle.

Se esse quadro for confirmado, Mianmar sofrerá uma nova espiral de inflação e terá de importar arroz das nações vizinhas, que desde o começo do ano sofrem com a crise do aumento de preços pela falta de fornecimento do grão.

A ajuda humanitária vai minimizar os efeitos desse problema a médio prazo, mas não o solucionará, afirma a ACF.

(*Com informações das agências EFE e Reuters)

Reprodução/Google Maps
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                  Mianmar está localizada no sudeste asiático

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