País dos Bálcãs apresentou solicitação formal para ser Estado-membro em 2009; cooperação de Belgrado com tribunal internacional era vista como pré-condição

A União Europeia afirmou nesta quinta-feira que a Sérvia superou o maior obstáculo para sua adesão ao bloco europeu após a detenção do ex-general sérvio-bósnio Ratko Mladic , uma clara demonstração de sua vontade de cooperar com o Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (TPII). 

Com a prisão de Mladic, sobre quem pesam 15 acusações , incluindo genocídio, violação de leis de guerra e crimes contra a humanidade pela Guerra da Bósnia (1992-1995), a Sérvia passa a ter uma imagem mais positiva perante a Comissão Europeia com relação aos seus esforços para colaborar com a Justiça e fechar as feridas das guerras da Iugoslávia. 

A detenção de Mladic coincidiu com a visita a Belgrado da chefe da diplomacia da União Europeia, Catherine Ashton, quem declarou que essa prisão "acelera o processo de integração da Sérvia à UE". Ashton elogiou a prisão e disse que ele deveria ser enviado ao tribunal para crimes de guerra sem demora.

"Esse é um passo importante para a Sérvia e para a Justiça internacional", disse Ashton em comunicado. "Esperamos que Ratko Mladic seja transferido para o TPII sem demora. A total cooperação com o TPII continua sendo essencial para o caminho da Sérvia rumo a seu ingresso na UE", afirmou.

Para o comissário para o Alargamento e a Política Europeia de Vizinhança, Stefan Füle, "a Sérvia está mais perto da UE do que nunca, pois com a detenção superou o principal obstáculo que havia à sua adesão".

Junto com o procurador-geral do TPII, Serge Brammerz, as maiores felicitações foram para as autoridades sérvias que, segundo o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, realizaram uma "ação corajosa" ao deter Mladic, quem acredita-se nunca ter deixado o país. "A detenção de Ratko Mladic envia um sinal muito positivo à União Europeia e aos vizinhos da Sérvia" disse à imprensa Barroso na cúpula do G8 , que reúne as maiores potências mundiais em Deauville, na França.

A partir dessa cúpula, o presidente do Conselho Europeu, Herman van Rompuy, ressaltou "o compromisso e a liderança pessoal do presidente sérvio, Boris Tadic," na detenção.

Adesão

O próximo passo da adesão da Sérvia à União Europeia ocorrerá em 10 de outubro, quando a Comissão Europeia dará sua opinião sobre a idoneidade da Sérvia para entrar na UE e se o país merece o estatuto de "candidato". 

A Sérvia apresentou a solicitação formal de adesão de seu país à UE em 22 de dezembro de 2009. Anteriormente, a aproximação sérvia à região esteve bloqueada durante anos pela Holanda, que rejeitou conceder um acordo de estabilização e associação, considerado a antessala da adesão, até perceber uma maior cooperação de Belgrado com o TPII. A Holanda só levantou o veto para o acordo em 7 de dezembro de 2009, quando flexibilizou sua postura após a divulgação de um relatório positivo emitido por Brammerz sobre a cooperação de Belgrado com Haia. 

Ao apresentar a solicitação formal de adesão, o presidente Boris Tadic destacou "o consenso da sociedade (sérvia) com relação à orientação europeia" do país e seu ingresso na UE.

Foragido

Mladic, conhecido como o "carniceiro da Bósnia" estava escondido sob identidade falsa na cidade Zrenjanin, no norte da Sérvia, onde vivia.

Mladic estava foragido desde 1995, quando foi indiciado pelo Tribunal de Guerra da ONU em Haia, Holanda, por genocídio pelo massacre de até 8 mil muçulmunos bósnios na cidade de Srebrenica , em 1995, e pelo cerco brutal de 43 meses a Sarajevo durante a Guerra da Bósnia (1992-1995).

O presidente da Sérvia confirmou a prisão de Mladic após a realização de testes de DNA. "Em nome da República da Sérvia, anunciamos que Ratko Mladic foi preso. O processo de extradição está em curso", disse em Belgrado, referindo-se à transferência do ex-comandante para Haia.

Tadic afirmou que Mladic foi detido na Sérvia, país que durante muito tempo disse que não poderia encontrar um homem visto como herói por muitos sérvios."Isso retira um fardo pesado da Sérvia e vira uma página de nossa desafortunada história", declarou o presidente.

Com a sua detenção já estão atrás das grades os três grandes criminosos de guerra da ex-Iugoslávia: Slobodan Milosevic, Radovan Karadzic e Ratko Mladic. Só fica pendente agora a prisão de Goran Hadzic, antigo líder dos sérvios da Croácia.

Milosevic

A União Europeia disse que a detenção de Mladic mostrará que a Sérvia, que sob o governo do falecido Slobodan Milosevic armou e financiou as forças servo-bósnias durante a guerra, deseja levar adiante sua adesão à União Europeia.

Sobreviventes muçulmanos bósnios disseram que a notícia causa um sentimento misto. "Estou feliz por estar vivo para testemunhar sua prisão, e ao mesmo tempo lamento muito que outras vítimas de Srebrenica não viveram para testemunhar este momento," disse Munira Subasic, que perdeu o filho e o marido quando soldados servo-bósnios sob o comando de Mladic tomaram Srebrenica, designada na época como "área segura pela ONU".

Perfil

Depois de viver em liberdade em Belgrado por algum tempo, Mladic desapareceu quando o ex-presidente da Iugoslávia Slobodan Milosevic foi preso, em 2001. A especulação sobre uma prisão iminente de Mladic aumentou quando Karadzic foi capturado em Belgrado, em julho de 2008.

Mladic nasceu na Bósnia, no vilarejo de Kalinovik, em 1942. Ele cresceu na Iugoslávia sob o regime de Tito e se tornou um oficial do Exército do Povo Iugoslavo. Quando o país começou a se desintegrar em 1991, ele foi enviado para liderar a 9ª Corporação do Exército Iugoslavo contra as forças croatas, em Knin.

Mais tarde, assumiu o comando do Segundo Distrito Militar do Exército Iugoslavo, com base em Sarajevo. Em maio de 1992, a Assembleia Servo-Bósnia votou pela criação de um Exército servo-bósnio, nomeando Mladic como seu comandante.

Ele era considerado um dos principais artífices do cerco de 43 meses a Sarajevo, e, em 1995, liderou a matança promovida pelas forças sérvias em Srebrenica - a maior atrocidade cometida na Europa desde a Segunda Guerra.

*Com AP, AFP, BBC, EFE e Reuters

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