Turbulência financeira aumentará crise dos alimentos, dizem especialistas

Joaquim Utset. Nações Unidas, 15 out (EFE).- As turbulências que atingiram os mercados financeiros internacionais aprofundarão a crise de alimentos nos países mais pobres do planeta, caso míngüe o financiamento necessário para aumentar a produção agrícola mundial, afirmaram especialistas à Agência Efe.

EFE |

O caos financeiro de Wall Street colocou em risco as fontes de financiamento necessárias para aumentar a produção de alimentos nos países em desenvolvimento, que é vista como a solução para estabilizar a volatilidade nos mercados agrícolas responsável pela recente crise alimentícia.

"À medida que esta crise financeira aumenta, torna-se evidente que os países em desenvolvimento, apesar de distantes de Wall Street e dos bancos europeus, serão os que mais sofrerão", disse o presidente-adjunto do departamento de Assuntos Externos do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (IFAD, na sigla em inglês), Matthew Wyatt.

Entre os especialistas, é consenso que a incerteza econômica reduz as possibilidades de as instituições financeiras privadas emprestarem dinheiro aos produtores agrícolas.

Além disso, a instabilidade nos mercados faz com que as nações ricas estejam menos predispostas a cumprir suas promessas de aumentar a ajuda ao desenvolvimento.

Segundo as Nações Unidas, até o momento, a comunidade internacional liberou apenas metade dos US$ 6 bilhões que havia prometido em junho para enfrentar a crise dos alimentos.

A esses fatores soma-se o fato de que os países em desenvolvimento terão menos oportunidades de acesso ao capital externo para emprestar a seus produtores, subsidiar os alimentos ou fornecer fertilizantes, explicaram os analistas.

O diretor do departamento de Desenvolvimento Rural e Agrícola do Banco Mundial (BM), Mark Cackler, lembrou que a África destina apenas 4% de sua capacidade financeira à agricultura, número muito abaixo do investido pelas economias asiáticas na "revolução verde" que acabou com as crises de fome no continente.

"O mundo tem que investir mais em agricultura, e a crise tornará isso mais difícil", acrescentou Cackler.

O BM prevê que a desaceleração nos países mais ricos causada pela crise financeira diminuirá em dois pontos o crescimento das economias das nações mais pobres em 2009, que muitas vezes vêm de um período de avanço sustentado.

Desse modo, a soma das crises alimentar, energética e financeira pode aumentar o número de pessoas desnutridas em 44 milhões, para 1 bilhão, segundo as previsões para este anos dos organismos multilaterais.

"Uma pessoa que perde o trabalho em um desses países, onde não existe um estado de bem-estar, passa diretamente para o desemprego, a pobreza e a fome", declarou à Agência Efe o chefe de política de desenvolvimento do Escritório de Coordenação de Assistência Humanitária (OCHA, na sigla em inglês) da ONU em Nova York, Hansjoerg Strohmeyer.

Outra conseqüência indireta da crise é uma redução nos países ricos da demanda pelos produtos agrícolas das nações em desenvolvimento, que são uma importante fonte de receita para suas frágeis economias.

A queda na demanda também pode levar a uma redução brusca dos preços dos alimentos, o que pode dar um alívio temporário, mas que acrescenta uma prejudicial volatilidade aos mercados, advertiu o responsável pelos assuntos agrícolas da Oxfam International, Carlos Galián.

"A solução não é uma recessão econômica que ajuste demais os preços, mas uma mudança de política na qual se incentive o aumento da produção dos países mais pobres", observou.

A organização humanitária reivindica que as medidas políticas adotadas por Estados Unidos e União Européia (UE) para superar a turbulência financeira levem em conta as necessidades dos 50 países mais afetados pela crise dos alimentos.

Galián afirmou que esses países importadores viram suas reservas diminuindo por causa do encarecimento dos alimentos no mercado global.

O índice de preços dos alimentos da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) registrou queda de 12% entre julho e agosto, embora continue 60% acima do nível do início de 2006. EFE jju/rb/sc

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