Tunísia inicia período de luto por vítimas de protestos

Manifestações antes e depois da queda de ex-presidente deixaram ao menos 78 mortos, diz governo

iG São Paulo |

A Tunísia iniciou nesta sexta-feira um período de três dias de luto oficial pela morte de dezenas de manifestantes nos protestos que precederam a queda do presidente Zine el Abidine Ben Ali e que continuam acontecendo no país. Além disso, o gabinete interino anunciou ter libertado todos os prisioneiros políticos detidos durante o antigo regime, em mais uma medida para "romper com o passado" do governo anterior.

AFP
Policiais montam guarda em avenida no centro da capital da Tunísia, Túnis, durante manifestação contra inclusão de funcionários do antigo regime no novo governo
Em entrevista à rádio pública francesa, o ministro tunisiano do Desenvolvimento Regional, Ahmed Nejib Chebbi, disse que outras medidas que devem agradar os opositores de Ben Ali serão tomadas. "Todos os prisioneiros foram libertados, todos. Depois virá a imunidade para as universidades, em outras palavras, a retirada dos policiais que ocuparam as universidades nos últimos 20 ou 23 anos, desde 1990", disse Chebbi.

"E foram abertos procedimentos contra o ex-presidente, sua família e seus colaboradores. Dois processos estão em andamento na Justiça e as investigações, nas mãos das autoridades."

O primeiro-ministro da Tunísia, Mohammed Ghannouchi, afirmou que "todas as leis antidemocráticas serão anuladas" no país durante o período de transição. Dentre as principais estão leis eleitorais e antiterroristas e o código de imprensa. Ele também se comprometeu a preservar o estatuto da mulher, que proíbe a poligamia, assim como a gratuidade do ensino e o acesso à saúde.

Cerca de 400 manifestantes fizeram um protesto em frente à sede da estatal Companhia Tunisiana de Transportes, exigindo a demissão de dirigentes ligados ao antigo regime. Um funcionário, que se identificou como Moftah, disse: "Essa companhia tem gente corrupta, e é hora de exigir nossos direitos. Não vamos silenciar sobre isso, queremos essa minoria fora."

O governo provisório que assumiu após a fuga de Ben Ali para a Arábia Saudita, na semana passada, disse que escolas e universidades reabrirão na segunda-feira. O ministro da Juventude e Esportes, Mohamed Aloulou, informou a jornalistas que os eventos esportivos serão retomados "muito em breve".

O governo diz que pelo menos 78 pessoas morreram desde o início da rebelião popular que derrubou Ben Ali, mas a ONU estima que o número chegaria a 100.

O novo governo, que ainda enfrenta protestos por ter mantido membros do gabinete anterior, ofereceu uma anistia geral a todos os grupos políticos, incluindo a proscrita oposição islâmica.

Os manifestantes se queixam de que, apesar da anistia prometida, apenas umas poucas centenas dos presos políticos foram soltos. Não se sabe ao certo quantos prisioneiros políticos havia durante o governo de Ben Ali, que durou 23 anos.

Na quinta-feira, o partido RCD, hegemônico no país desde a independência, dissolveu sua direção política, e os demais partidos estão autorizados a operar livremente. "Não podemos negar que há pessoas honestas e patriotas dentro desse partido", disse o jornal La Presse. "Eles precisam renovar os elementos saudáveis e politicamente tolerantes de um partido que foi formado na luta pela independência."

"A nova arena política com muitos partidos é um sonho tunisiano que foi realizado, mas só será completado quando (esses partidos) tiverem programas claros e práticos para o desenvolvimento nacional", disse o jornal Al Sahafa.

A TV estatal mostrou imagens de armas sendo retiradas de casas de familiares de Ben Ali, um clã odiado pela população por sua fama de corrupção. "Isso mostra os excessos da família", disse a emissora.

Ben Ali foi derrubado após semanas de protestos causados pela pobreza, o desemprego e a repressão. Foi a primeira rebelião genuinamente popular a derrubar um líder do Oriente Médio desde a deposição do xá do Irã, em 1979.

Roubo de ouro

O Banco Central da Tunísia reiterou nesta sexta-feira que as reservas estratégicas de ouro do país, de 6,8 toneladas, não mudaram nos últimos 20 anos, desmentindo mais uma vez a denúncia de que a mulher do presidente deposto Ben Ali tenha roubado 1,5 tonelada de ouro antes de fugir do país.

"Há 5,3 toneladas de ouro nos cofres do Banco Central tunisiano (BCT) em Túnis e 1,5 tonelada no Banco da Inglaterra em Londres. Essa quantidade não mudou em 20 anos", afirmou um funcionário do BCT, que pediu o anonimato.

Segundo o canal de televisão TF1 e o jornal francês Le Monde, a esposa do ex-ditador, Leila Ben Ali, teria fugido de Túnis com 1,5 tonelada de ouro em forma de lingotes no valor de US$ 60 milhões.

Na casa de um cunhado de Ben Ali, a polícia tunisiana encontrou um verdadeiro arsenal, segundo imagens exibidas pelo canal de televisão estatal nesta sexta-feira. Fuzis com mira telescópica, pistolas, fuzis de caça e munições foram encontrados enterrados no pátio de uma residência pertencente à família de Leila Trabelsi.

A televisão pública exibiu imagens de policiais na residência, um dia depois do anúncio da prisão de 33 membros da família do ex-presidente.

*Com Reuters, BBC e AFP

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