As tropas das Nações Unidas (ONU) atingiram o limite de sua habilidade para policiar os pontos do mundo em conflito, advertiu o diretor da organização para Tropas de Paz, Jean-Marie Guehenno, em entrevista à BBC.

Guehenno, que deixa o cargo nesta quinta-feira, disse que os países-membros da ONU disponibilizaram apenas um terço dos 26 mil soldados autorizados a seguirem para Darfur, no Sudão, e que seria extremamente difícil encontrar recursos para futuros compromissos, inclusive um futuro envio de tropas para a Somália.

Guehenno, no cargo há oito anos, disse ainda que o uso inadequado das tropas de paz pode levar a fracassos. Ele destacou que elas não podem operar sem acordos políticos para por fim a conflitos.

"A comunidade internacional (...) diante de uma tragédia, quer fazer alguma coisa", disse o funcionário da ONU. "Enviar capacetes azuis pode parecer uma resposta fácil."

"Os capacetes azuis estão lá para apoiar o processo, o suposto acordo político", afirmou. "Se não houver um acordo político, há um risco real de que a força não faça diferença."

Darfur

Atualmente as Nações Unidas possuem mais de 9 mil soldados e policiais em Darfur, em uma força conjunta ONU-União Africana. Mas há autorização para um total de 26 mil.

As agências de ajuda humanitária africanas dizem que a força não está atendendo aos civis na região e Guehenno acredita que a força enviada ao local não tem recursos suficientes para fazer o seu trabalho.

"Mesmo que ela tenha todos os recursos planejados, na ausência de um processo político sólido, ela não estará em posição de fazer o seu trabalho", afirmou.

"Eu estou profundamente preocupado porque eu acho que o risco lá é que se nós não tivermos sucesso em Darfur, isso vai reverberar por todas as tropas de paz."

A correspodente da BBC na sede da ONU, em Nova York, Laura Trevelyan, disse que se os soldados de paz forem enviados, vão entrar em uma situação onde não há paz a ser mantida.

Além de seus compromissos em Darfur e em outras áreas, a ONU está sob pressão para enviar tropas de paz para a Somália, onde combatentes islamistas estão lutando com tropas etíopes.

Guehenno vê os riscos de enviar soldados à Somália.

"Se você quiser enviar uma força para um ambiente como este, a menos que você esteja disposto a sofrer muitas baixas, precisa de uma força muito bem equipada, uma força muito forte", afirmou.

"O perigo é humilhação, baixas, é que se você enviar uma força e não fizer uma diferença verdadeira, então as pessoas vão realmente dar as costas para a Somália, e isto será uma verdadeira tragédia", acrescentou.

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