Troca de prisioneiros não leva a aproximação entre Israel e Hezbollah

Esta quarta-feira foi um dia de fortes emoções em ambos os lados da fronteira entre o Líbano e Israel. Em Israel, foi um dia de sofrimento e raiva.

BBC Brasil |

No Líbano, o triunfo e o desafio eram os sentimentos dominantes.

Esse senso de vitória era particularmente forte no comício promovido pelo grupo xiita Hezbollah no sul da capital libanesa, Beirute.

Dezenas de milhares de pessoas se amontoaram em uma praça, com a bandeira amarela e verde do Hezbollah e também com a bandeira do Líbano nas mãos.

A lealdade desses seguidores fiéis do Hezbollah foi recompensada com uma rara aparição pública do líder do movimento, Hassan Nasrallah, que estava lá para receber os cinco militantes libertados por Israel no início do dia.

"A era das derrotas passou, e a era das vitórias chegou", disse Nasrallah. "Esse povo, essa nação deixou uma forte e clara imagem hoje para seus amigos e inimigos, de que não pode ser derrotada."
O mais polêmico dos prisioneiros libaneses a ser libertado por Israel é Samir Qantar. Ele foi preso em 1979 pela morte de três israelenses, entre eles uma menina de quatro anos.

"Eu voltei hoje da Palestina. Mas, acreditem, eu não vou voltar até que tenha retornado à Palestina", disse Qantar. "Eu prometo ao meu povo e a meus queridos na Palestina que eu e meus caros camaradas na corajosa resistência islâmica estamos voltando."
"União"
Os cinco prisioneiros libaneses libertados por Israel foram recebidos como heróis em seu país. Logo após serem transferidos para o lado libanês da fronteira em veículos da Cruz Vermelha, eles trocaram de roupa e vestiram uniformes militares.

Os homens caminharam sobre um tapete vermelho, ao som de música marcial.

Houve cenas parecidas em Beirute, onde eles foram recebidos pelos principais políticos libaneses, inclusive o presidente, Michel Suleiman, o primeiro-ministro, Fouad Siniora, e o presidente do Parlamento, Nabih Berri.

Esse evento ganha importância pelo fato de esses três políticos pertencerem a diferentes facções. Pelo menos superficialmente, foi um momento de união em um país profundamente dividido.

No entanto, na verdade os eventos do dia foram mais a respeito do Hezbollah do que da unidade nacional ou dos cinco prisioneiros libertados.

Desde a retirada de Israel do sul do Líbano, em 2000, o Hezbollah prometeu que iria conseguir a libertação todos os libaneses mantidos em prisões israelenses. Esta era uma das duas razões apresentadas pelo grupo para justificar sua contínua "resistência" contra Israel.

Agora, esse objetivo foi atingido e o movimento deverá relembrar os eventos desta quarta-feira como uma grande vitória, que será comparada à retirada israelense do Líbano.

É também o fim simbólico da guerra de 2006 entre Israel e o Hezbollah. Aquele conflito foi iniciado no dia 12 de julho, quando militantes do Hezbollah fizeram uma emboscada contra uma patrulha israelense.

Eles seqüestraram Ehud Goldwasser e Eldad Regev, os dois soldados israelenses cujos corpos foram devolvidos a Israel nesta quarta-feira.

O Hezbollah diz que esse ataque foi executado para tentar obter a liberdade dos prisioneiros libaneses mantidos em Israel.

Israel foi à guerra para resgatar seus dois soldados e punir o Hezbollah pela incursão em seu território.

"Resistência"
Um alto membro do Hezbollah disse à BBC que os dois soldados foram capturados vivos. Segundo essa fonte, eles foram feridos durante o ataque na fronteira, mas só morreram depois.

Essa informação não pode ser confirmada de maneira independente. Até que os caixões chegassem à fronteira, na manhã desta quarta-feira, não se sabia nem se os dois soldados estavam vivos ou mortos.

Se a troca de prisioneiros é uma vitória para o Hezbollah, como o grupo afirma, ela teve um preço alto para o Líbano e para Israel.

Mais de 1.125 libaneses e cerca de 160 israelenses morreram durante o conflito.

Essa troca de prisioneiros não vai levar a uma aproximação entre os dois lados.

O Hezbollah mantêm suas armas e afirma que tem o direito de continuar com sua "resistência" contra Israel. O grupo também exige que a área de Sheeba, ocupada por Israel em 1967, seja devolvida ao Líbano.

Esse território é disputado internacionalmente e até que seu status seja resolvido, o Hezbollah vai continuar a argumentar que tem o direito de lutar contra Israel.

Do lado israelense, também parece não haver disposição para qualquer tipo de acordo mais amplo com o Hezbollah. Israel e Síria estão em meio a negociações indiretas e é pouco provável que haja discussões - muito menos um acordo - entre o Líbano e Israel até que haja progresso em relação à Síria.

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