Troca de poder em Anbar preocupa iraquianos

Os Estados Unidos transferiram em cerimônia na cidade de Ramadi, nesta segunda-feira, o controle da província de Anbar, no oeste do pais, a forças iraquianas. Antes um dos centros da resistência sunita contra as forças de ocupação no país, a província sofreu uma transformação a partir de 2006, quando antigos insurgentes se voltaram contra a rede extremista Al-Qaeda e se tornaram aliados dos Estados Unidos.

BBC Brasil |

O correspondente da BBC em Bagdá, Mike Seargent, classifica a transferência de poder como um importante marco na campanha dos EUA no Iraque, mas destaca que a maior preocupação agora é sobre como as milícias sunitas, responsáveis pela segurança na região, irão se relacionar com o governo nacional iraquiano, controlado pelos xiitas.

A preocupação é dividida com parte da população local, que teme possíveis conflitos entre as milícias sunitas e o poder central. As hostilidades entre as duas partes têm aumentado nos últimos meses em outras partes do país.

"Nós já temos policiamento feito por iraquianos em minha cidade. A pessoas no controle são militantes dos Conselhos de Salvação", diz o negociador de gado Ahmed, referindo-se aos membros de grupos tribais sunitas que se juntaram às forças americanas para combater a Al-Qaeda.

"Mas o que mais nos preocupa é a relação entre os membros dos conselhos com a autoridade central iraquiana. Até agora, os americanos intermediavam essas relações, mas o que acontecerá quando eles saírem?", diz Ahmed, que lembra que o governo tem problemas com estes grupos em lugares como Diyala e Bagdá.

Histórico de conflitos
Maior província iraquiana, Anbar se tornou um dos grandes centros da resistência sunita contra a ocupação no país. Muitos dos líderes sunitas da região se juntaram à Al-Qaeda no Iraque e a outros grupos insurgentes a partir de 2003.

Mais de um quarto das baixas americanas no Iraque aconteceram na região, que sofreu com intensos combates entre insurgentes e forças dos EUA.

Um dos momentos mais graves do período de ocupação americana na província aconteceu em março de 2004, quando quatro contratados por forças americanas foram emboscados e tiveram os corpos queimados e arrastados pelas ruas de Falluja.

A situação, no entanto, começou a mudar em 2006, quando os líderes tribais se voltaram contra a Al-Qaeda, acusando-a de tentar dominar a insurgência.

Apoiados pelos EUA, os líderes tribais formaram os chamados Conselhos de Salvação, ficando a cargo da segurança da região e se consolidando como uma força militar e política separada do governo central.

"A situação agora esta muito mais segura, não há como comparar", diz o negociador de gado Ahmed. "Mas a oferta de eletricidade está pior, o que é um grande problema para a agricultura. Nós não temos meios de irrigar as plantações por causa do custo do diesel e da escassez de eletricidade nas bombas."
O futuro político também preocupa Ahmed. "Em Anbar temos dois tipos de comunidades: as pequenas cidades e as tribos. O problema é que os conselhos dominam tudo", afirma.

"Eles são melhores que os grupos religiosos, mas não há representação para as cidades. Quando as eleições regionais acontecerem, serão entre os conselhos e o Partido Islâmico", diz.

Adiamentos
A transferência do poder na província para as mãos de iraquianos foi adiada diversas vezes. Inicialmente programada para março, a entrega foi adiada para junho, para depois ser novamente reprogramada.

Os oficiais americanos alegaram que o adiamento em junho foi provocado por uma tempestade de areia. A entrega também não teria ocorrido em julho por causa de desavenças entre o governador da província e a autoridade central do Iraque pelo controle das forças de segurança.

As forças americanas possuem atualmente 28 mil soldados em Anbar, menos que os 37 mil que tinham em fevereiro. Enquanto isso, a província agora conta com 37 mil soldados e policiais iraquianos, ante 5 mil de três anos atrás.

A retirada americana da província, no entanto, deve ocorrer de forma gradual. Com a transferência de Anbar, os iraquianos passarão a controlar 11 das 18 províncias do país.

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