Depois de uma semana de debates em torno de temas controversos, a troca de acusações agora é explícita nos corredores da Organização Mundial do Comércio (OMC), em Genebra. Os Estados Unidos acusam Índia e China de ameaçar o delicado equilíbrio da Rodada Doha, e a Argentina se distancia do Brasil no capítulo referente à abertura do setor industrial dos paises emergentes.

Um alto funcionário americano enviou aos demais sócios da OMC um comunicado no qual afirma que a posição de Índia e China representa o "maior perigo" que a rodada já sofreu desde seu lançamento, em 2001.

No domingo, a negociadora americana, Susan Schwab, já havia feito uma velada referência a esses países ao dizer que "um pequeno grupo de países emergentes" está "comprometendo o delicado equilíbrio" do processo.

A principal preocupação de chineses e indianos é proteger seus pequenos agricultores da abertura de mercados, que, segundo eles, poderia ameaçar a segurança alimentar nacional e levar milhares de trabalhadores à miséria.

A China já anunciou que incluirá arroz, açúcar e algodão na lista de produtos especiais que poderá ficar livre de qualquer corte de tarifas de importação.

Além disso, apóia a exigência da Índia de facilitar a aplicação de um mecanismo de salvaguarda especial - flexibilidade que permitiria aos países em desenvolvimento voltar a subir as tarifas de importação para proteger-se de um acentuado aumento nas importações.

No domingo, o ministro de Comércio indiano, Kamal Nath, afirmou que outros cerca de 80 países têm a mesma preocupação.

Concessões na indústria
A China também acusou os americanos de pressionar os países em desenvolvimento a fazer concessões em setores industriais nos quais os Estados Unidos têm grande vantagem exportadora, como o de maquinaria, químico e automotivo.

Nesse capítulo, a Argentina se soma às reclamações, distanciando-se do Brasil, seu sócio no Mercosul, que já se disse satisfeito com a abertura proposta para suas indústrias.

Lamy deve apresentar nesta segunda-feira um texto revisado para tentar aproximar as posições opostas, mas seu porta-voz, Keith Rockwell, admite que será um documento cheio de espaços em branco.

"O objetivo é colocar no papel o que já foi tratado até agora para que as delegações tenham tempo suficiente para avaliar as propostas. Os temas sobre os que ainda não há convergência estarão em branco", explicou.

As principais pendências são a definição da lista de produtos tropicais que terão cortes mais rápidos nas tarifas de importação, o possível fim do sistema de preferências que dá vantagens às exportações dos países do bloco ACP (África, Caribe e Pacifico) aos países ricos, e os subsídios dos Estados Unidos a seus produtores de algodão.

Esses temas serão discutidos pelo Grupo dos Sete, cujas conclusões devem ser apresentadas, posteriormente, aos cerca de trinta ministros que participam das negociações em Genebra.

Na reunião desta segunda-feira com todos os membros da OMC, Lamy disse que "é hora de mostrar flexibilidade", já que o tempo "está se esgotando".

"Todos estão cansados e não podem ficar em Genebra para sempre", afirmou seu porta-voz, Rockwell.

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