Trinta anos após chegar ao poder, Thatcher ainda desperta paixões

Joaquín Rábago. Londres, 2 mai (EFE).- Margaret Thatcher é hoje uma idosa de saúde frágil e memória fugidia que vive em uma casa tranquila em um bairro nobre de Londres, em frente à qual há sempre um policial em guarda.

EFE |

No entanto, muitos ainda conservam uma imagem bastante viva da combativa mulher que, em um dia 4 de maio, há 30 anos, chegou ao número 10 de Downing Street e iniciou uma revolução que acabaria com o consenso socialdemocrata do pós-guerra britânico, transformaria radicalmente o Reino Unido e seria imitada em outros países.

Os críticos mais ferrenhos de Thatcher lembram atualmente a revolução conservadora da "Dama de Ferro", baseada no livre mercado, que destruiu comunidades inteiras nas zonas industriais do norte e oeste do país, as quais ainda não se recuperaram totalmente.

Nunca uma figura política despertou aqui paixões tão opostas como a ex-primeira-ministra. Os seguidores de Thatcher afirmam que ela libertou o Reino Unido das amarras socialistas que impediam o país de se modernizar, crescer e competir com sucesso em um mundo globalizado.

Já os inimigos a acusam de ter atomizado o Reino Unido e tornado o país muito mais desigual, superficial, consumista e frio.

A inglesa de classe média, filha de um dono de mercearia, que adotou as teorias econômicas de Friedrich von Hayek e Milton Friedman, mudou não só o próprio partido, mas contribuiu também para transformar o trabalhismo.

A influência da Dama de Ferro foi grande ao ponto de um conhecido jornalista, Simon Jenkins, se referir em um livro a Tony Blair e Gordon Brown como "os filhos de Thatcher".

Para Martin Jacques, diretor da publicação de esquerda "Marxism Today", em cujas páginas foi cunhado o termo "thatcherismo", ela foi uma "revolucionária (de espírito quase bolchevique) que achava que a velha ordem socialdemocrata deveria ser destruída com toda a bagagem".

Ao contrário da direita radical e nacionalista, os conservadores não se consideravam, até a chegada de Thatcher, um partido "anti-establishment", disposto a levar à frente tudo o que fizesse falta para dar uma direção totalmente nova ao país.

O velho consenso keynesiano em torno do estado do bem-estar, das indústrias nacionalizadas e do pleno emprego, foi irremediavelmente rompido com a revolução neoliberal liderada por Thatcher.

Nos anos em que ocupou o poder, de maio de 1979 a novembro 1990, a conservadora desregulou e contribuiu à prosperidade da City de Londres com o chamado "Big Bang" de 1986, acabou com o poder dos sindicatos, cortou os impostos e, paralelamente, o gasto público.

Além disso, ela liberou o mercado de trabalho, aplicou critérios de mercado ao Serviço Nacional de Saúde, algo que continuaria, como muitas outras coisas, no Novo Trabalhismo, e reduziu o apoio público ao ensino, às artes e à cultura em geral.

Algumas das frases de Thatcher a definem perfeitamente: "Não existe isso que chamam de sociedade", "O poder dos sindicatos é a autêntica causa do desemprego" ou "Os mercados sempre sabem mais que os Governos".

Ela levou essas ideias consequentemente à prática sem que parecesse se importar muito com as consequências.

Como destacou recentemente o jornalista britânico Paul Routledge, que cobriu para o "The Times" as ferozes disputas trabalhistas e industriais daqueles anos, "é impossível para alguém de fora compreender o ódio que Thatcher chegou a inspirar nas velhas comunidades mineiras" do país.

"O ódio mal diminuiu em um quarto de século, muito depois que (os mineiros) fossem esmagados e seu modo de vida destruído para sempre", afirmou Routledge recentemente na revista "New Statesman".

Porém, como não há nada que dure para sempre, com a crise financeira e econômica global, muitas das reformas adotadas por Thatcher e seus imitadores são hoje questionadas.

O keynesianismo, que estava abandonado para sempre, voltou à pauta do dia, e as nacionalizações de bancos e o aumento da pressão fiscal sobre os mais ricos são assuntos recorrentes.

Ninguém mais acredita, depois do escândalo das bonificações dos executivos de bancos, em uma relação entre esforço virtuoso e justa recompensa.

E muitos voltam a ler Karl Marx, cuja famosa frase "tudo que é sólido desmancha no ar" parece descrever melhor que nada a situação atual. EFE jr/db

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