Tribunal Internacional convoca quatro ex-dirigentes do Khmer

Julgamento, que começará em 2011, estabelecerá a suposta responsabilidade dos acusados em ao menos 1,7 milhão de homicídios

iG São Paulo |

Um novo capítulo na história do Camboja teve início nesta quinta-feira, com a convocação perante o Tribunal Internacional de quatro ex-dirigentes do regime do Khmer Vermelho (1975-1979), que serão acusados de genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra.

Os acusados são o ex-chefe de Estado durante o regime, Khieu Samphan; o principal ideólogo da organização radical, Nuon Chea; o ex-ministro de Assuntos Exteriores, Ieng Sary; e sua mulher, Ieng Thirit, que foi titular de Assuntos Sociais.

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Ieng Sary (E) e sua mulher Ieng Thirit são acusados de genocídio, além de crimes de guerra e contra a humanidade
A formalização das acusações abre a possibilidade de os quatro serem julgados pelo tribunal internacional das Nações Unidas, que em julho condenou a 30 anos de prisão o quinto dos detidos, Kaing Guek Eav, conhecido como "Duch".

"Duch", o oficial do Khmer Vermelho de menor categoria de entre os cinco que estão presos, desempenhou o cargo de chefe do centro de torturas de Tol Sleng, pelo qual passaram cerca de 14 mil vítimas.

Segundo o juiz do tribunal, You Bunleng, o julgamento de Nuon Chea, Khieu Samphan, Ieng Sary e Ieng Thirit começará no início de 2011. Ele acrescentou ainda que o julgamento estabelecerá a suposta responsabilidade dos acusados "no contexto do ataque à totalidade da população do Camboja". "Estimamos que houve entre 1,7 milhões e 2,2 milhões de mortes, das quais aproximadamente 800 mil foram violentas", lembrou.

Segundo estimativa do Centro de Documentação para o Genocídio do Camboja, 1,7 milhões de pessoas morreram por causa da crise de fome, doenças e expurgos realizados pelo regime do Khmer Vermelho, entre abril de 1975 e janeiro de 1979.

Os quatro acusados foram detidos em meados de 2007, e desde então fizeram todas as apelações possíveis contra a ordem de detenção, sempre perdendo. Os ex-dirigentes do Khmer Vermelho estão detidos em uma prisão adjacente à corte desde 2007, e negam seu envolvimento nas ondas de fome, trabalhos forçados, torturas e massacres que dizimaram a população.

O líder do regime, Pol Pot, morreu em abril de 1998 na base da guerrilha situada em Amlong Veng, no noroeste do Camboja.

Campos de extermínio

O horror do regime do Khmer Vermelho ainda é visível nos campos de extermínio de Choeung Ek, nos arredores de Phnom Penh, onde são feitos passeios entre as valas comuns para relembrar o terrível passado do Camboja.

O lugar, onde durante muitos anos estiveram espalhados pelo chão os restos mortais e retalhos das roupas que vestiram milhares de vítimas dos massacres do Khmer Vermelho, mudou ao longo do tempo.

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Turistas visitam campo de extermínio de Choeung Ek, onde Khmer atuava
Os soldados que se protegiam da chuva ou do sol sob a copa de uma árvore e pediam uma gorjeta ao visitante foram substituídos por uma bilheteria que cobra entrada e, nos locais onde o mato crescia, foi feito um jardim.

O cabo de alta tensão com que as pessoas eram eletrocutadas foi retirado há algum tempo de Choeung Ek, um local bucólico até 1988, quando começou seu processo de transformação com a construção de edifícios funerários budistas feitos para guardar os restos humanos.

Hoje, os quiosques de refrescos e guloseimas, os pontos de venda de suvenir e o museu sobre o genocídio, completam a oferta de passeios entre ossos e fossas pelos quais, segundo o diretor de Choeung Ek, Chour Sokty, passam uma média de 300 turistas e vários cambojanos, diariamente. Cartazes guiam o visitante pelo caminho que as vítimas faziam desde que desciam do caminhão até que, agachados ao lado da vala, recebiam um golpe mortal, sendo eletrocutados ou degolados.

Em uma das fossas, onde um dia se aglomeraram os restos de 8.985 cadáveres, várias galinhas bicam a terra. Em outra, situada a poucos metros de distância, um cartaz informa que no lugar "foram encontrados dezenas de corpos decapitados". As placas pedem ainda cuidado aos visitantes para que evitem pisar em ossos ou dentes que podem aparecer quando chove forte.

Os campos de extermínio e a antiga escola de Tuol Sleng, onde foram torturadas cerca de 14 mil pessoas, são parte da oferta turística da capital cambojana. Com o aumento de visitantes, a direção de Choeung Ek planeja fazer obras para modernizar o local e acrescentar alguns atrativos.

*Com EFE e AFP

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