Tribunal condena perfumista Guerlain a multa de 6 mil euros por racismo

Em 2010, Jean-Paul Guerlain disse ter trabalhado como 'um negro' e não saber se 'negros trabalharam tanto assim'; multa ultrapassa R$ 14 mil

iG São Paulo |

O Tribunal Correcional de Paris condenou nesta quinta-feira Jean-Paul Guerlain, herdeiro da famosa casa de perfumes Guerlain, a uma multa de 6 mil euros (R$ 14,537 mil) por injúria racista , depois das declarações feitas em 2010 sobre os negros que provocaram indignação, que levaram a um pedido de boicote da marca.

AP
Guerlain comparece à corte para ser julgado em Paris (9/2)
Guerlain foi julgado por declarações feitas em 15 de outubro de 2010 ao canal France 2. Naquele dia, referindo-se à criação do perfume Samsara, o ex-perfumista de Guerlain ele disse ter trabalhado "como um negro" para elaborar a fragrância. "Uma vez, trabalhei como um negro. Não sei se alguma vez os negros trabalharam tanto assim", afirmou na época.

O tribunal absolveu Guerlain a propósito da primeira frase, mas o condenou pela segunda.
Além da multa, deverá pagar 2 mil euros (R$ 4,845 mil) por perdas e danos a cada uma das associações contra o racismo que apresentaram a queixa: Mrap, Licra e SOS Racisme.

Em seu veredicto, o tribunal considerou que, apesar de "a expressão 'trabalhar como um negro' seja antiquada e desagradável e poder escandalizar algumas pessoas, não constitui uma injúria no contexto litigioso".

Os magistrados ressaltaram que a segunda parte da frase implicava "sugerir o ócio de um grupo de pessoas devido a sua origem ou raça", o que é "simultaneamente depreciativo e injurioso".

"Já não estamos na época em que podem prevalecer preconceitos surgidos na época colonial", afirmou o advogado da SOS Racisme, Patrick Klugman.

Sua colega, Sabrina Goldman, advogada da Licra, disse se sentir "muito satisfeita com a decisão, que permitiu compreender que Guerlain não tentou dizer algo humorístico, e que o racismo não é uma opinião, e sim um crime."

Outro lado

O advogado do perfumista, Basile Ader, não sabe dizer se seu cliente, ausente na sessão, apelará ou não da condenação.

As reações de protesto aos comentários do criador foram imediatas na época e Guerlain chegou a pedir desculpas, afirmando que suas palavras não refletiam seu pensamento.

Durante a audiência de 2 de fevereiro, Guerlain confessou que suas declarações foram "uma idiotice". "Peço desculpas à comunidade negra por essa idiotice", repetiu em várias ocasiões o homem que até então era conhecido por ter lançado cerca de 40 perfumes de fragrâncias inesquecíveis, de Vétiver até Habit rouge, passando por Samsara e Jardins de Bagatelle.

Seu pedido de desculpas, no entanto, não bastou para acalmar a polêmica, nem para evitar que várias organizações de luta contra o racismo apresentassem uma queixa judicial.

Com 75 anos de idade e aposentado desde 2002, Guerlain trabalhou 47 anos na empresa da família e continuou sendo conselheiro da empresa depois de se aposentar. A empresa, no entanto, interrompeu a colaboração dias depois de suas declarações sobre os negros por considerá-las inadmissíveis.

*Com AFP

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