por nascer - Mundo - iG" /

Treze anos após acordo, Bósnia ainda é país por nascer

Treze anos após o acordo de paz que encerrou um dos mais sangrentos conflitos nos Bálcãs, a Bósnia-Herzegóvina ainda luta para tentar afastar velhas e novas ameaças de separação.

BBC Brasil |

Ainda sob supervisão da ONU, o país se assemelha a uma nação ainda por nascer - mas já volta os olhos para a União Européia, na esperança de que as novas oportunidades sirvam de incentivo para minimizar tensões étnicas de longa data existentes dentro de país.

A complexidade étnica da Bósnia - aqui convivem os chamados bosniaks, ou muçulmanos, os sérvios, cristãos ortodoxos, e os croatas, católicos - justifica o antigo apelido de "pequena Iugoslávia".

Pelo acordo de paz de Dayton, assinado em dezembro de 1995, as três etnias se alternam à cabeça do mesmo governo central. Sob esse frágil guarda-chuva existem duas entidades: a Federação da Bósnia, muçulmano-croata, e a República Sérvia, de etnia sérvia, mas independente da vizinha governada por Belgrado.

Cada uma tem seu próprio Parlamento e primeiro-ministro, e são tão autônomas que o maior dilema do país é se o frágil estado central vai ser capaz de andar com as próprias pernas no dia em que a missão da ONU deixar o pais.

Divisão

A divisão está nos detalhes. Como na própria classificação étnica dos cidadãos - contra a qual um grupo de jovens se manifestava quando a reportagem da BBC visitou Sarajevo.

Sob chuva, uma fila de bósnios se formava para fazer um abaixo-assinado contra o fato de que, se não se encaixar em um dos três grupos étnicos - bosniak, sérvio e croata -, um bósnio precisa se declarar como "outros".

"Queremos ser cidadãos da Bósnia-Herzegóvina e que nossa nacionalidade seja simplesmente bósnia-herzegóvina", disse um dos organizadores do protesto, Jasmin Gabela.

A militante Una Cardzic se diz cansada de ser enquadrada na categoria de "outros" dentro de seu próprio país. "Hoje somos o resto."
Outro ilustrativo exemplo das dificuldades de integração é o patrulhamento da divisa entre a Federação Bósnia e a República Sérvia. Um dos pontos mais importantes da divisa é uma rua comum, residencial, no leste de Sarajevo.

Atravessa-se a rua a pé, mas se um criminoso passar de um lado a outro, só pode ser capturado com a ajuda da polícia do outro lado. A polícia da Federação Bósnia diz que não existe sequer um sistema integrado de rádio para possibilitar a comunicação.

Gerações

Se em Sarajevo é possível identificar sinais de divisão, isto é ainda mais claro em cidades menores do país.

Em Mostar, um enclave de etnia croata na Federação Bósnia, um episódio levantou recentemente a discussão sobre a reprodução de rivalidades étnicas entre a geração do futuro.

Na única escola mista da cidade, a polícia encontrou uma bomba, e agora investiga a existência de um esquema de brigas entre jovens de etnias diferentes organizadas pela internet.

Desde cedo, bosniaks, sérvios e croatas recebem educação distinta - segundo currículos escolares distintos - de acordo com sua etnia. Uma situação criticada pela Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OCSE), que qualifica as políticas educacionais bósnias de "fraturadas" e "divisivas".

"Se os eleitores de amanhã forem educados de acordo com as normas da divisão nacionalista e excludente dos princípios étnicos, a Bósnia-Herzegóvina permanecerá sob risco constante de fragmentação ou dissolução", alerta um relatório da OSCE.

Nacionalismo político

E esta é uma possibilidade que vozes na política consideram. Uma das mais notórias é a do primeiro-ministro da República Sérvia, Milorad Dodik, que já afirmou que sua metade do país poderia se declarar independente se a união não avançar economicamente.

Ao receber a BBC em um dos imponentes salões do moderno e envidraçado palácio do governo, em Banja Luka, a capital da República Sérvia, Dodik disse que a existência de uma parte sérvia está prevista no acordo de Dayton, e que tentativas de criar um país único são "iniciativas de Sarajevo... contra o espírito de Dayton".

Ele se defendeu dos que o acusam de incentivar as tensões étnicas na Bósnia. "Muitas vezes fui julgado pela minha retórica, mas nunca ouvi falar de violência gerada por conta da minha retórica."

Entretanto, críticos chamam atenção para a capacidade dessas declarações de ressoar no interior do país, onde os moradores não têm acesso à internet e estão menos expostos aos processos globais de integração.

"Existe uma grande promoção, por parte dos partidos políticos, para colocar as questões étnicas no primeiro plano", disse Iugoslav Jedic, porta-voz da organização OKC, que trabalha com diversos projetos para jovens em Banja Luka.

Sonho europeu

Se houver um fator capaz de unir os jovens de Banja Luka, Sarajevo e Mostar, é o sonho de, um dia, fazer parte da União Européia. Em junho, o país assinou com a UE o Acordo de Estabilização e Associação, que poderia levar, no futuro, a negociações para a entrada no bloco.

Muitos bósnios não escondem a aspiração ao passaporte único e ao fim da necessidade de pedir visto para entrar nos países vizinhos. Para Jedic, o desejo se tornar "europeu" é mais forte que o de permanecer nacionalista.

"Se a República Sérvia se separar, não entraremos na UE. Os jovens, ainda que não se vejam como bósnios, estão cientes disso", diz. "Esse é o país que vai existir por muitos anos. E quem sabe no futuro, na UE, os jovens não se importem tanto com essa questão da etnia, já que as fronteiras se abrirão."

Mas é a própria comunidade internacional que joga um balde de água fria nesta possibilidade. "A UE não pode simplesmente tomar uma decisão adminsitrativa e passar a incluir a Bósnia", disse à BBC o chefe da missão da ONU na Bósnia, Miroslav Lajcak. "Essa é uma das percepções equivocadas neste país."

"A UE é um organismo que requer certo desempenho (econômico e político). Se não estiver preparada economicamente, a Bósnia será arruinada ao entrar na UE. Economicamente, políticamente. E isto também tornaria a EU não funcional".

Para Lajcak, uma entrada prematura "seria como promover um time de futebol de quarta divisão para a primeira. Seria uma humilhação". "A única maneira é investir no time e estimular para que ele se qualifique, e é isso que a comunidade internacional está fazendo."
A avaliação da UE é que a "agenda nacionalista" na Bósnia continua prevalecendo sobre a agenda européia.

Treze anos depois da guerra, bósnios jovens e velhos, urbanos e camponeses, compartilham um país dividido. Um novo conflito parece uma possibilidade distante. Assim como o entendimento sobre o que deve ser o futuro do país.

Leia mais sobre Bósnia

    Leia tudo sobre: bósnia

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG