Três meses depois do golpe, Honduras continua em crise

José Luis Paniagua. Tegucigalpa, 26 set (EFE).- A crise política de Honduras continua sem sinais de solução três meses depois do golpe que derrubou o presidente, Manuel Zelaya, cujos seguidores voltaram hoje às ruas de Tegucigalpa para lembrar o ocorrido.

EFE |

Em meio a essa situação, cresce a precariedade nas condições da Embaixada do Brasil em Honduras, onde Zelaya está refugiado desde segunda-feira, dia em que voltou ao país.

O encarregado de negócios da embaixada, Francisco Catunda, disse hoje que o local está sitiado.

Em paralelo, centenas de seguidores de Zelaya voltaram hoje a protestar, em um ritual que se repete desde 28 de junho, data do golpe, com os mesmos cartazes e retratos do presidente deposto, as bandeiras de Honduras e um percurso que agora, no entanto, acaba nas embaixadas dos Estados Unidos e do Brasil.

A sede diplomática brasileira está completamente cercada por militares e policiais que impedem o acesso ao local. Segundo denúncias do próprio Zelaya, a embaixada foi alvo de cortes de luz, água, comunicações, além de gases tóxicos e fustigação sonora.

Segundo Francisco Catunda, a situação não está normal na embaixada, como disseram as autoridades golpistas hondurenhas.

"Está tudo sitiado, não temos telefone, estamos totalmente cercados, isolados", disse Catunda a jornalistas ao sair da embaixada, onde foi substituído hoje pelo ministro conselheiro do Brasil na Organização dos Estados Americanos (OEA), Lineu Pupo de Paula.

Catunda confirmou que foram sentidos na sexta-feira os efeitos de um gás tóxico que havia deixado algumas pessoas com irritações de garganta, como denunciou Zelaya.

"Ontem senti mal-estar no nariz e na garganta, foi pouco", disse à Agência Efe o assistente da Chancelaria da embaixada do Brasil José Wilson, ao explicar que, "um dia, caiu uma bomba de gás a dois metros" de onde ele se encontrava.

Fora da sede diplomática, a situação de crise continua estagnada e sem solução, apesar dos convites de ambas as partes para conversar.

Até o momento, nem Zelaya, nem o presidente do Governo golpista, Roberto Micheletti, informaram sobre novos encontros para impulsionar o diálogo apresentado na quinta-feira com estardalhaço por quatro dos candidatos à Presidência hondurenha nas eleições de novembro e que não avançou um milímetro desde então.

O dirigente camponês Rafael Alegria, um dos líderes da Frente Nacional de Resistência contra o Golpe, disse à Efe que "o diálogo deveria ocorrer na embaixada do Brasil", já que o presidente deposto não pode deixar o local.

Alegria disse que "o diálogo deveria ser diretamente com Zelaya", mas não descartou a possibilidade do envio de representantes para um "lugar neutro".

Apesar da falta de iniciativas concretas até agora, o dirigente camponês assegurou que "há uma sensação de que pode haver uma saída" pelo diálogo, já que, em sua opinião, "há brechas" nas Forças Armadas e entre empresários e políticos que inicialmente apoiaram a derrubada de Zelaya.

Por sua vez, o secretário-geral da Confederação Unitária de Trabalhadores de Honduras (CUTH), Israel Salinas, também dirigente da Frente, disse à Efe que "o que mais interessa aos golpistas é atrasar o processo de solução".

Próximos a Salinas e Alegria, os seguidores do presidente deposto gritavam palavras de ordem como "Mel (apelido de Zelaya), aguenta que o povo se levanta" e "Obrigado Brasil por proteger Mel deste regime tão vil".

Para Maritza Burgos, dona de casa e, segundo diz, presença constante nas manifestações, a passagem destes 90 dias dá "mais força para continuar lutando contra os que estão manipulando, contra os ricos".

Ao seu lado, a professora universitária María Olímpia disse que nestes 90 dias esteve "como o país, trabalhando dias sim, dias não", mas comparecendo sempre que possível às manifestações.

"(Os golpistas) não entendem que o povo não vai para casa, o povo fica na rua", disse. EFE jlp-gr/bba

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG