Trem que salvou centenas de crianças judias volta aos trilhos

Gustavo Monge. Praga, 2 set (EFE).- O assobio de uma velha locomotiva a vapor da companhia ferroviária da República Tcheca gerou calafrios de emoção ao anunciar, na terça-feira, a partida de um comboio que, há 70 anos, livrava centenas de crianças judias dos horrores do Holocausto nazista.

EFE |

Depois de 70 anos do início da Segunda Guerra Mundial, o trem que partiu ontem da estação central de Praga, rumo a Londres, quer homenagear o trabalho de sir Nicholas Winton, que entre 1938 e 1939, conseguiu mandar 669 jovens tcheco-eslovacos, em sua maioria judeus, para o Reino Unido.

No dia 1º de setembro de 1939, Winton fez o possível e o impossível, diante da impossibilidade da saída do último trem de Praga, que salvaria mais crianças das garras do nazismo.

A explosão da Segunda Guerra Mundial impediu que o comboio, organizado pelo Movimento de Refugiados Infantis tcheco, abandonasse a cidade.

Mas seu trabalho nos meses anteriores permitiu salvar centenas de vidas, graças a complicadas operações logísticas, que deram certo na época e que foram recriadas agora com a máxima fidelidade, tanto pelo tipo de vagões utilizados, quanto pelo percurso.

Entre os passageiros do trem que partiu ontem, estavam 22 das 669 "crianças de Winton", acompanhados por cerca de 60 familiares e pela filha do benfeitor.

Winton foi um dos principais responsáveis por aquelas operações de salvamento.

Após abandonar ontem a capital tcheca, o comboio de dez vagões passará pelas cidades alemãs de Nüremberg e Colônia, além da holandesa de Hoek van Holland.

Em Colônia, está prevista uma visita a uma sinagoga, e em todas as paradas haverá encontros com autoridades locais.

Além destes atos protocolares, o trem, levado por uma locomotiva a vapor, deverá efetuar outras paradas no caminho para se reabastecer com água.

Após atravessar o canal da Mancha e alcançar o porto de Harwich, a previsão é que o trem chegue a Londres na sexta-feira, às 8h37 locais (5h37, horário Brasília).

Lá, a comitiva será recebida na estação pelo próprio Winton, que já tem 100 anos.

Sua ação humanitária foi homenageada em 1998, pela Ordem de Tomas Garrigue Masaryk, da República Tcheca, e, em 2002, Winton recebeu o título de cavalheiro britânico.

O britânico deixou passar despercebida a façanha de sua vida e toda a história só foi divulgada graças a sua esposa, Greta, que encontrou um velho caderno de notas que documentavam o episódio.

Das crianças que deixaram a então Tchecoslováquia graças à ajuda de Winton, "a maioria ficou nas Ilhas Britânicas, mas conservaram um pouco de suas raízes tchecas", declarou Vojtech Berger à Agência Efe, um dos ocupantes do comboio de homenagem.

Somente 20 dessas "crianças de Winton" residem hoje em seu país de origem.

Também viaja no comboio o diretor de cinema eslovaco Matej Minac, que imortalizou a obra de Winton em 2002, com seu documentário "O Poder do Bem", que ganhou um prêmio Emmy.

O Reino Unido acolheu cerca de 10 mil crianças, em sua maioria judias, que fugiram da Alemanha nazista e dos territórios ocupados da Áustria, da antiga Tchecoslováquia e da Polônia, entre elas, as "crianças de Winton". EFE gm/pd

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