Buenos Aires, 11 jun (EFE) - Transportadoras de grãos continuaram hoje com o bloqueio de estradas em seis províncias da Argentina para exigir uma solução ao conflito entre o Governo e o campo, com o que aumentou a escassez de combustíveis e diminuiu a oferta de alimentos.

A falta de combustíveis, pela qual as petrolíferas também são responsabilizadas, afeta tanto o interior do país quanto serviços de ônibus nos subúrbios de Buenos Aires, disseram fontes empresariais.

Além disso, teme-se um desabastecimento de alimentos em um momento em que setores do comércio no varejo calculam que a oferta de produtos básicos diminuiu em 30%.

As transportadoras reivindicam o lucro que deixaram de ter com a longa greve comercial do setor agropecuário, que terminou na última segunda-feira, e com a comercialização de grãos, que responde a pressões dos agricultores irritados com o aperto do Fisco.

Os protestos das transportadoras, que começaram há uma semana, criaram um clima de tensão e incidentes, entre eles o ataque a tiros a um comboio de caminhões registrado na noite de terça-feira e que não deixou feridos.

As associações agrárias, que reúnem cerca de 290 mil produtores de todo porte, se mantêm "em estado de alerta e mobilização" por rejeitar o sistema de impostos variáveis que vigora há três meses e originou o conflito, devido ao aumento da pressão do Fisco sobre as exportações de grãos.

Pequenos produtores continuam protestando à beira de estradas, em meio ao alarme de empresários pelo impacto que estas manifestações tiveram nas economias regionais.

Dirigentes da Confederação Argentina do Transporte Automotor de Cargas (Catac) disseram hoje que não organizaram o protesto dos chamados "caminhões de cereais", mas o justificaram em vista da pobreza econômica sofrida por 160 mil filiados à central sindical.

A reação das transportadoras "é um fato lamentável", criticou o vice-presidente da Sociedade Rural, Hugo Biolcati.

"Deveria ficar clara a diferença de método" entre o protesto dos caminhoneiros e o das associações agrárias "que se mantêm mobilizadas à espera de poder dialogar", disse Biolcati à emissora "Radio 10".

O presidente da Catac, Rubén Agugliaro, disse que há 200 piquetes que mantêm bloqueada a passagem de caminhões em rotas das províncias de Buenos Aires, Córdoba, La Pampa e Santa Fé, as maiores produtoras de alimentos do país, e das de Entre Ríos e Chaco.

Os bloqueios mantêm parados centenas de caminhões em Entre Ríos, ao leste do país, que, com as províncias de Santa Fé e Córdoba, abrange uma rede viária-chave para o transporte de mercadorias no Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai).

Além disso, as interrupções de fluxo causam demoras à passagem de automóveis e ônibus, cujos empresários se queixaram de que as vendas de entradas de teatro caíram 40% nos mais de três meses que dura o conflito entre o Governo e o campo.

Por causa da escassez de gasóleo, uma empresa de ônibus paralisou hoje metade de sua frota de 300 veículos, e precisou dispensar o mesmo número de motoristas, prejudicando cerca de 200 mil usuários do serviço nos subúrbios de Buenos Aires.

Fontes da anglo-holandesa Shell, que abastece essa e outras companhias de ônibus, disseram que a produção de gasóleo da firma se reduziu por causa de uma greve de trabalhadores petrolíferos do sul do país em maio.

Mas dirigentes de associações de postos de gasolina que há meses se queixam da escassez de combustíveis afirmaram que, além dos problemas causados pelo bloqueio de estradas, há uma disputa entre as petrolíferas pelos preços do petróleo no mercado local, que são regulados.

O Governo fixou um preço doméstico de US$ 42 por barril de petróleo, mas a americana Chevron e a anglo-argentina Pan American Energy querem cobrar US$ 47 às refinarias de Shell e YPF, subsidiária da hispano-argentina Repsol YPF, disse a presidente da Federação de Empresários de Combustíveis, Rosario Sica.

Enquanto isso, porta-vozes do comércio no varejo calcularam que o abastecimento de produtos da cesta básica de alimentos caiu 30%, em média.

O ministro do Interior, Florencio Randazzo, reiterou hoje que as autoridades estão dispostas a dialogar com o campo, "como com todos os setores".

No entanto, ressaltou que evitarão que "se queira impor uma decisão a um Governo eleito democraticamente", em referência à rejeição agrária ao sistema de impostos variáveis à exportação de grãos. EFE alm/db

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