Transexuais, travestis e eunucos buscam espaço no Paquistão

Igor G. Barbero.

EFE |

Islamabad, 2 fev (EFE).- Os transexuais, eunucos e travestis lutam para ocupar seu espaço histórico no Paquistão, apesar das frequentes agressões e discriminações que sofrem no país islâmico, como a recente detenção e tortura de cinco pessoas.

Em 23 de janeiro, cinco "hijra" - nome usado para denominar o grupo do "terceiro sexo" - foram detidos pela Polícia quando voltavam para casa na localidade de Taxila, próxima a Islamabad, após terem feito uma apresentação de dança.

"Foram detidos e bateram muito neles. Só por serem transexuais", lamentou à Agência Efe Miss Bobby, um popular hijra da cidade de Rawalpindi que preside a Associação pelos Direitos dos Transexuais do Paquistão.

"Convocamos protestos em Rawalpindi que foram apoiados por centenas de pessoas", disse Bobby, que comemorou por ter forçado o Governo provincial do Punjab a suspender os três oficiais da Polícia que cometeram a agressão.

Os hijra paquistaneses ainda têm um longo caminho pela frente em um país conservador país que não tem legislação sobre a mudança de sexo, e onde a comunidade transexual gera receio entre os "guardiães da moral".

Segundo alguns especialistas, as origens deste grupo se remontam ao Império Mogol, e seus antecedentes são os homens castrados ou eunucos que custodiavam os haréns dos imperadores.

Os hijra são tanto homens que decidem se castrar e agir como mulheres quanto transexuais convencionais, e também há casos de pessoas que têm desordens genéticas e nascem com órgãos genitais mistos.

Excluídos do mercado de trabalho devido a sua identidade sexual e alvo fácil de doenças venéreas como a aids, algumas fontes do grupo afirmam que o terceiro sexo é formado por aproximadamente 1 milhão de pessoas no Paquistão, com comunidades numerosas em grandes cidades como Karachi e Lahore.

"Os hijra não são um mistério no Paquistão, mas é frequente encontrá-los pelos núcleos urbanos protagonizando um comportamento chamativo e provocativo, que desperta sentimentos de rejeição, lástima ou aceitação", disse à Efe uma feminista.

"Infelizmente, não têm, por norma geral, trabalhos decentes.

Ninguém presta muita atenção a eles e sofrem isolamento e discriminação", disse à Efe a presidente da Comissão de Direitos Humanos do Paquistão, Asma Jahangir.

Para se sustentar, pedem dinheiro em semáforos ou bazares, onde recebem gorjetas devido ao temor de que possam jogar mau-olhado, ou vão a casamentos e batizados, onde servem de entretenimento aos convidados que não podem pagar "verdadeiras" dançarinas.

Finalmente, "muitos terminam no mundo da prostituição" como única alternativa para sobreviver, disse Jahangir.

"A maioria é muito pobre e não tem dinheiro nem para pagar a casa e a comida", disse Miss Bobby, que aos 17 anos saiu de casa, rompeu qualquer relação com a família e se manteve graças às atuações artísticas.

"As pessoas gritam conosco, não acham que somos seres humanos. No hospital, riem de nós. A Polícia comete abusos sexuais e nos agride.

Da família até as pessoas na rua, passando pelos vizinhos, nenhum ambiente nos é favorável", disse Miss Bobby.

Segundo o transexual, "apesar das muitas dificuldades, tudo é possível no Paquistão. Mas de maneira oculta".

"Enfrentamos muitos problemas, mas amamos nosso país, queremos melhorá-lo. Somos também muçulmanos. Quem diz que não podemos ser? E rezamos muito a Deus. Tomara que o Governo nos reconheça algum dia como uma minoria especial, como são, por exemplo, os cristãos, e nos trate como merecemos", concluiu. EFE igb/an

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG