Fernando Puchol. Londres, 4 mai (EFE).

Fernando Puchol. Londres, 4 mai (EFE).- O Partido Trabalhista enfrenta no dia 6 de maio as eleições mais difíceis desde que Tony Blair levou esta legenda a recuperar o poder em 1997 e a uma profunda e dolorosa renovação se, como preveem as pesquisas, tiver seus piores resultados eleitorais do último quarto de século. As últimas pesquisas dão ao trabalhismo, comandado pelo primeiro-ministro, Gordon Brown, intenções de voto abaixo dos 30% , uma percentagem que, se for repetida nas urnas, representaria o pior resultado obtido por este partido desde que Margaret Thatcher arrasou o líder trabalhista, Michael Foot, em 1983. Os trabalhistas também podem terminar o 6 de maio como a terceira força mais votada, uma situação sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial, que é consequência da surpreendente entrada nesta campanha eleitoral do Partido Liberal-Democrata, que está roubando do trabalhismo a mensagem progressista e de renovação. Se acontecer uma derrota histórica, 6 de maio marcará o final da carreira política de Gordon Brown, que herdou as rédeas do partido e do Governo de Tony Blair em junho de 2007, e possivelmente da corrente política do Novo Trabalhismo, que permitiu a este partido voltar ao poder no final dos anos 90. Treze anos no poder queimam qualquer político, mas no caso do trabalhismo britânico a situação se agravou sensivelmente no último ano e meio por causa da crise econômica e do escândalo do abuso das despesas dos parlamentares, que acabou esgotando sua imagem perante os eleitores. No entanto, o Partido Trabalhista se agarra à possibilidade de que as características do sistema eleitoral britânico permitam-lhe dar a que seria uma das maiores viradas recentes nas eleições e permanecer no número 10 de Downing Street por mais cinco anos. Os 45 milhões de britânicos com direito a voto renovarão a Câmara dos Comuns, que é a que elege o primeiro-ministro, já que não se vota o líder de um determinado partido, mas o representante de cada uma das legendas na circunscrição na qual residem. Em cada uma dessas circunscrições, o candidato mais votado é o único que consegue representação na Câmara Baixa do Parlamento britânico, embora atinja uma percentagem escassamente representativa. "Pode-se chegar a ganhar toda uma circunscrição com apenas 26% dos votos, embora a norma geral seja fazê-lo com uma percentagem de entre 30% e 40%", disse recentemente Patrick Dunleavy, professor da London School of Economics. É por isso que pode acontecer que no dia 6 de maio o Partido Trabalhista seja a força com mais parlamentares, embora atinja uma percentagem menor no voto geral. Ainda com Tony Blair à frente, os trabalhistas obtiveram em 2005 355 deputados (a maioria absoluta é 326) com 36% dos votos, uma percentagem que aos conservadores de David Cameron pode resultar-lhes insuficiente para governar com comodidade. "Os trabalhistas só precisariam de 35% dos votos para conseguir a maior representação na Câmara dos Comuns", explicou Dunleavy, e inclusive abaixo de 30%, e se nem "tories" (conservadores) nem liberal-democratas superarem 35%, o trabalhismo pode estar em condições de formar Governo. É por essa razão que o trabalhismo fortaleceu sua campanha em seus redutos mais tradicionais, no norte da Inglaterra, Escócia e nos centros urbanos da Inglaterra, que podem garantir um resultado honroso que salve o primeiro-ministro, Gordon Brown, e inclusive legitimá-lo no poder para outra legislatura. Após as brilhantes vitórias eleitorais de Tony Blair em 1997, 2001 e 2005, Brown pegou bastão de um partido que já estava ferido pela participação do Reino Unido na Guerra do Iraque e pelas lutas internas para comandar o partido no futuro. Brown foi o escolhido para suceder o inspirador do "Novo Trabalhismo", que enterrou as correntes mais esquerdistas do partido, porque ambos chegaram há anos a um pacto pessoal para repartirem a chefia do Governo ao chegar ao poder. Esse pacto pode estar fechando o ciclo, que começou em meados da década de 1990 quando a terceira via trabalhista continuou o trabalho iniciado pelo moderado Neil Kinnock, que assumiu a liderança do partido após a dolorosa derrota de 1983 por um trabalhismo que era visto quase como um grupo radical de esquerda. Kinnock uniu os trabalhistas na derrota, moderou o programa eleitoral e suprimiu a influência dos sindicatos, algo que não impediu de sofrer outra clara derrota eleitoral em 1992. Ele foi sucedido por John Smith, cuja morte repentina em 1994 abriu a porta para Tony Blair, que desde a definição de si mesmo como "centrista radical" mudou a cara deste partido. Em 1995, o Partido Trabalhista aprovou se desvincular oficialmente do marxismo, só dois anos antes de conseguirem recuperar o poder após 18 de hegemonia "tory". As coisas mudaram e agora o trabalhismo volta a olhar para a esquerda e para líderes mais jovens, como o ministro de Exteriores, David Miliband, ou de faceta mais proletária, como o ministro do Interior, Alan Johnson, para pensar no futuro. EFE fpb/ma/mh

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