Tony Blair será interrogado sobre decisão de ir à guerra do Iraque

O ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair será interrogado nesta sexta-feira sobre a decisão de levar a Grã-Bretanha a entrar em guerra contra o Iraque. Será a primeira vez que Blair responderá em público a perguntas sobre os fatos que antecederam a ação militar liderada pelos Estados Unidos e em que a Grã-Bretanha desempenhou um papel de peso.

BBC Brasil |

A participação de Blair no inquérito Chilcot é bastante esperada no país. A sessão será iniciada às 9h30 GMT (7h30 em Brasília) em um centro de conferências no centro de Londres.

Ele será questionado por seis horas sobre os eventos que levaram à entrada do país na guerra, em 2003, e os desdobramentos do conflito. Os membros do júri que vem conduzindo os trabalhos do inquérito devem concentrar suas perguntas na justificativa dada pelo ex-premiê para entrar em guerra contra o Iraque, baseada em controversos dossiês elaborados pelo governo.

Iniciado no final de novembro, o inquérito está analisando o período entre 2001 e 2009 e observar três pontos principais: a justificativa para a entrada no conflito, a preparação para a invasão do Iraque, em 2003, e as deficiências no planejamento para a reconstrução do país asiático.

Com membros nomeados pelo primeiro-ministro Gordon Brown, o júri, presidido por John Chilcot, não vai estabelecer culpa ou determinar responsabilidade civil ou criminal, mas apenas emitir advertências e recomendações, para evitar que eventuais erros cometidos no episódio sejam repetidos no futuro.

O relatório final preparado pelo júri será debatido no Parlamento.

Famílias
As famílias de alguns dos 179 soldados britânicos mortos no Iraque devem participar de um protesto pacifista do lado de fora do prédio onde o inquérito está sendo realizado, no centro de Londres. Vários pais de soldados mortos acusam Blair de ser um criminoso de guerra.

O ex-premiê tem sido bastante criticado após afirmar, no último mês de dezembro, em entrevista exclusiva à BBC, que teria prosseguido com a guerra do Iraque em 2003 mesmo sem evidências de que o país, então governado por Saddam Hussein, possuía armas de destruição em massa.

Blair deve ser perguntado em que estágio ele teria prometido ao então presidente americano, George W.Bush, que a Grã-Bretanha apoiaria uma ação militar contra o Iraque.

Algumas testemunhas que já participaram do inquérito afirmaram que a promessa teria sido feita em 2002, apesar de o então procurador-geral britânico Peter Goldsmith ter alertado Blair sobre a necessidade de uma justificativa legal para a ação militar.

Em depoimento na quarta-feira, Goldsmith disse que até um mês antes da invasão, em 2003, acreditava que a empreitada só seria legal se fosse aprovada por uma nova resolução da ONU, mas ele acabou mudando de ideia e aceitando o argumento de que uma resolução anterior da ONU sobre o Iraque previa o eventual uso da força no país caso Saddam Hussein não cumprisse determinadas exigências.

O depoimento do ex-assessor de Blair, Alastair Campbell, também foi bastante aguardado no inquérito. Campbell disse que "defendia cada palavra" do relatório sobre as supostas armas de destruição em massa do Iraque, divulgado seis meses antes da invasão, em setembro de 2002.

Como diretor da área de comunicação do gabinete do primeiro-ministro entre 1997 e 2003, ele teve um papel de peso na elaboração do relatório que serviu de base para justificar a decisão do governo.

Campbell disse que o dossiê não foi escrito para apresentar "o argumento pela guerra", mas para mostrar porque Blair estava cada vez mais preocupado com a ameaça representada pelo Iraque.

O documento incluía uma introdução de Blair, em que ele dizia acreditar que as informações de inteligência demonstravam "sem dúvida" que Saddam Hussein havia continuado a produzir armas químicas e biológicas, uma afirmação que Campbell diz ter apoiado na época.

Campbell escreveu o primeiro rascunho da introdução, que foi então aprovado por Blair.

Sobre a alegação de que Saddam podia disparar armas em 45 minutos, Campbell disse que o dossiê poderia "obviamente" ter sido mais claro.

Mas ele insistiu que Blair apresentou um argumento equilibrado à Câmara dos Comuns antes da guerra e que a alegação dos 45 minutos só teve repercussão por causa da imprensa.

Reação
Segundo o biógrafo de Tony Blair, Anthony Seldon, a participação do ex-premiê no inquérito representa "um dia crucial para ele, para o público britânico e para a autoridade moral da Grã-Bretanha no mundo".

O premiê Gordon Brown, que também prestará depoimento no inquérito, disse que não estava preocupado sobre a participação de Blair.

"Tony Blair é capaz de explicar o caso, de mostrar as decisões que ele tomou, e de fazê-lo do modo mais eloquente e profissional, e eu acredito que ele será capaz de responder todas as questões que o inquérito fizer a ele", afirmou Brown ao canal de tevê Sky News.

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