Tihaiti, um bairro onde vive a desesperança

Tihaiti é um dos bairros mais pobres de Porto Príncipe; um mostruário dos problemas vividos por um dos países mais pobres do mundo, onde milhares de pessoas vivem confinadas, sem banheiros, luz ou água.

AFP |

Em "créole", a língua local de raízes francesas, Tihaiti quer dizer 'petit Haiti', ou 'pequeno Haiti', um jogo de palabras para significar tudo o que representa o local: uma coleção das dificuldades enfrentadas pelos haitianos.

Localizado a noroeste da capital, Porto Príncipe, não se pode entrar em Tihaiti sem ter como companhia algum participante de ONG ou capacetes azuis das Nações Unidas que patrulham o local.

Ainda assim, o visitante se vê imediatamente cercado por multidão de mulheres e crianças desesperadas que pedem esmolas, e pronunciam sem cessar a palavra "mangu", fome.

Muitos combatem a falta de alimento com 'biscoitos' de argila secos ao sol. Misturados com água, incham e enganam o estômago.

Zona baixa e inundável, o encharcado e barrento Tihaiti exibe milhares de casinhas de folhas de zinco. O único curso de água do lugar é impossível de ser percebido sob toneladas de garrafas de plástico e lixo flutuando, a não ser pelos porcos que chegam até lá.

Diante de um pequeno templo, um grupo de jovens termina de desmontar o chassis de um carro, para tentar vender as peças e obter algum dinheiro.

Dentro da modesta edificação de um templo, 20 pessoas com roupas endomingadas cantam e leem a bíblia.

"Estudei para ser jornalista, mas não funcionou e abandonei. Agora não faço nada. Meu marido ganha muito pouco", afirma a senhora Moscles Masón, em conversa com a AFP.

"Queríamos mudar daqui, mas não temos dinheiro", acrescenta a jovem de 33 anos, que se esforça por falar francês.

A mulher assegura que "seria difícil" viver no bairro sem a presença das tropas das Nações Unidas.

Tihaiti fica junto à tristemente famosa Cité Soleil, uma das zonas mais violentas do Haiti, um bairro extremamente perigoso durante os enfrentamentos de 2004 antes e depois da saída do poder de Jean Bertrand Aristide.

Aqui não há emprego.

Muitas crianças caminham nuas pelas ruas, tendo como única aposta de futuro a educação modesta fornecida pelas poucas escolas públicas que funcionam precariamente.

As doenças contagiosas estão na ordem do dia e a única coisa que conta a cada manhã é conseguir um prato de comida.

Fracos, desnutridos, com o olhar perdido, muitos moradores do local são testemunha ambulante do sofrimento.

Em meio à miséria, cada um se agarra ao que pode para continuar vivendo, como bem resume a senhora Moscles Masón: vir à igreja nos ajuda. A palavra de Deus é o que nos alimenta aqui.

mr/sd

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