Tetos : De Marx a Mingus

Manhattan Plaza, o Milagre na Rua 42, são duas torres gigantes com 1.680 apartamentos e 3.

BBC Brasil |

500 moradores. Fica quase na beira do Hudson, tem vistas esplêndidas do rio e da cidade, quadras de tênis, estúdios de dança, música, piscina e confortos de um prédio de rico. Na realidade foi construído para rico mas nenhum quis morar lá.

A região ainda era conhecida como Hell's Kitchen, Cozinha do Inferno. Para muitos, hoje está mais para paraíso. Foi gueto dos irlandeses que chegaram fugindo da miséria e, depois, dos porto-riquenhos. As brigas de gangues entre eles gerou um dos maiores musicais de todos os tempos, West Side Story (Amor, Sublime Amor), neste momento em cartaz numa remontagem bilíngue.

Na década de 70, quando Manhattan Plaza foi construído, a Nona Avenida com 42 era ponto dos travestis. A Décima Avenida era ponto das prostitutas com seus cafetões sempre por perto e a área era povoada por traficantes e drogados. Os construtores das torres apostavam numa renascença econômica na região mas veio a brutal recessão de 73. Rico não morava ali nem de graça e o prédio ficou vazio vários anos. Um dia alguém propôs transformá-lo numa residência para artistas - fica a três quarteirões dos teatros da Broadway - e de passo a passo, chegou lá.

Houve resistência da vizinhança mas, para variar, venceu o bom senso e, com verba federal, 75% dos apartamentos foram dedicados a artistas das "performing arts" ( pintores, escultores etc... foram discriminados), 15% aos velhos e 15% aos pobres, mas hoje há também a opção do preço de mercado. O problema na época era chegar e sair de casa. Larry David, criador de Seinfeld e do extraordinário Curb Your Enthusiasm morava lá e, quando voltava do trabalho à noite, fingia que estava entupido de heroína. Cambaleava e dizia coisas sem nexo.

Por lá passaram - e ainda vivem - milhares de artistas que talvez nunca tivessem uma carreira em Nova York, onde os aluguéis não abrigam bailarinos e escritores em começo de carreira. Criadores já famosos como Tennessee Williams, Charles Mingus, Terrence Howard passaram pelo prédio. Samuel Jackson foi morador e guarda noturno. Muitos saíram de lá mortos. Nenhum outro prédio nos Estados Unidos teve tantas vítimas de Aids.

Hoje há uma fila de espera de 10 anos para entrar no prédio e uma fila para entrar na fila. Você precisa provar que tem renda baixa, paga um terço do que ganha de aluguel e o governo paga o resto. Os donos estão felizes e as finanças do prédio vão bem.

Nas eleições municipais é um bloco poderoso porque se mobiliza em torno e causas específicas e, em geral, vota unido. Há conjuntos residenciais maiores em Nova York mas poucos tão politicamente coesos.

O documentário sobre as torres deve estar pronto no fim do ano para o festival de Tribeca e esta semana entrou no ar outro sonho imobiliário At Home in Utopia, na rede pública, PBS, muito anterior e mais revolucionário. O "coops", como era conhecido, era o prédio dos comunistas de Nova York. Foi há 80 anos, no Bronx , e tinha 2 mil moradores. No século 20 (os peregrinos, no século 17, também eram "comunistas") foram pioneiros na criação de uma sociedade imobiliária sem fins lucrativos. A experiência ia além da ideologia: convidaram negros, pobres, vários grupos étnicos e houve vários casamentos inter-raciais. Tinha uma biblioteca com 20 mil volumes, clubes de jovens playgrounds, um sofisticado esquema de creche diária.

Durante muitos anos funcionou tão bem que serviu de modelo para três outras cooperativas residenciais: Farband Houses, de Sionistas; Sholom Aleichem Houses, de socialistas que falavam ídiche e o Amalgamated Houses, de filiados ao sindicato das confecções. Destes, só o do sindicato sobrevive.

Os comunistas foram muito bem até a primeira crise financeira. O prédio que oferecia tanto entrou na cor do partido e os contadores calcularam que se pagassem US$ 1 a mais por quarto, o problema estaria resolvido. Os comunistas se recusaram, a revolução imobiliária foi para o brejo e o prédio foi vendido em 1943. Hoje a biblioteca é a lavanderia e o prédio capitalista tem as contas em dia.

Estas cooperativas foram fonte de inspiração para o vasto projeto habitacional de Nova York, que hoje administra 178 mil apartamentos e há outros prédios subsidiados para artistas, mas não vão tão bem como o Milagre da 42. Um milagre por quarteirão ainda é utopia.

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG