Testemunha narra brutalidade na Guerra da Bósnia em julgamento de Karadzic

Lara Malvesí. Haia, 13 abr (EFE).- A primeira testemunha do julgamento do ex-líder sérvio da Bósnia Radovan Karadzic, o prisioneiro muçulmano Ahmet Zulic, relatou hoje a brutalidade das tropas servo-bósnias na cidade de Sanski Most.

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Zulic, que continuará a acareação amanhã, é a primeira testemunha no julgamento de Karadzic, acusado de crimes de genocídio e contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional para a Antiga Iugoslávia (TPII), em Haia.

O ex-prisioneiro, que evitou contato visual com Karadzic, disse que as tropas servo-bósnias "degolavam" suas vítimas e incendiavam suas casas.

Zulic, que em junho de 1992 foi detido junto a dezenas de outros muçulmanos em condições "subumana", segundo sua declaração, perdeu 35 quilos na época e sofre de estresse pós-traumático.

"Diante da falta de água durante a detenção, só podíamos beber nossa própria urina", disse Zulic, que afirmou poder dar testemunhos de assassinatos e de ter recebido surras, que teriam fraturado algumas de suas costelas.

"Às vezes um homem nos segurava, enquanto outro nos batia com um taco", contou Zulic, que recebeu uma surra por negar-se a se benzer, como foi ordenado por um soldado sérvio.

Sem água e amontoados em pequenos espaços, muitos prisioneiros morreram por desidratação, conforme o testemunho de Zulic.

"Alguns morriam no meio da noite entre gritos que duravam dez minutos, mas que pareciam uma eternidade, enquanto outros morriam silenciosamente", acrescentou.

Outro episódio apresentado por Zulic ao TPII foi o assassinato de 20 homens em 1992, que os soldados servo-bósnios teriam obrigado a cavar sua própria cova.

Depois de ser interrogado pela promotoria, Zulic foi interpelado diretamente por Karadzic, que defende a si mesmo e tem direito a contra-réplica com as testemunhas.

Karadzic destacou desde o princípio de seu discurso a "falta de credibilidade" da testemunha.

Segundo ele, Zulic falou em sua declaração sobre alguns fatos de forma taxativa que depois no julgamento afirmou não conhecer "com segurança".

O ex-líder servo-bósnio ressaltou que havia uma resistência muçulmana organizada à ofensiva sérvia em Sanski Most, que a testemunha negou.

Zulic voltará ao julgamento amanhã. O juiz concedeu mais tempo para a testemunha e aconselhou que realize suas perguntas de forma direta "em vez de fazer comentários".

A segunda testemunha também poderá comparecer à sessão de amanhã, um operário muçulmano expulso de sua casa e cuja mulher foi assassinada em, em 1995.

No primeiro dia do julgamento, manifestantes se reuniram na porta do tribunal e denunciaram que a Sérvia não entrega o antigo chefe militar servo-bósnio Ratko Mladic ao TPII, apesar de conhecer, segundo eles, seu paradeiro.

Karadzic, que se declara inocente, será condenado à pena de prisão perpétua se for considerado culpado de ser o "comandante supremo" de uma campanha de limpeza étnica contra os muçulmanos.

No total, o fundador do Partido Democrático Sérvio - psiquiatra de profissão e que tem 64 anos - enfrenta 11 acusações por crimes de guerra, contra a humanidade e por genocídio na guerra civil da Bósnia (1992-1995), onde a estimativa é de que 100 mil pessoas tenham sido mortas e mais de dois milhões tenha ficado sem casa. EFE lmi/pd

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