Terroristas resistem em hotel após ataques que mataram 155 em Mumbai

Comandos das forças armadas indianas lutavam na madrugada deste sábado no interior do hotel Taj Mahal de Mumbai para desalojar terroristas islâmicos ainda entrincheirados no prédio, 54 horas após o início da série de atentados contra a capital financeira da Índia.

AFP |

O tiroteio no interior do hotel começou por volta das 04H00 local de sábado (20H30 Brasília), após horas de relativa calma.

Segundo fontes militares, os comandos procuram ao menos três terroristas, fortemente armados, escondidos no interior do Taj Mahal.

Oficiais indianos informaram que o Taj Mahal é a última área de Mumbai onde ainda há terroristas.

De acordo com a imprensa local, o número de mortos seria de 155 até o momento, além de 327 feridos. Já a agência de notícias Press Trust of India, que cita o ministro do Interior, Sri Prakash Jaiswal, diz que esse número pode passar de 200.

Entre as vítimas fatais há ao menos 17 estrangeiros.

No final da noite de sexta-feira, a polícia anunciou que a situação estava sob controle e que as operações seriam suspensas no hotel Oberoi/Trident e no Taj Mahal, mas o tiroteio recomeçou no interior do prédio do segundo hotel na madrugada de sábado.

Segundo um diplomata do governo de Israel, cinco reféns israelenses foram mortos em um centro religioso judaico ortodoxo de Mumbai durante a ofensiva terrorista.

De acordo com nota divulgada pelo Chabad-Lubavitch, um rabino e sua mulher foram mortos. De nacionalidade americana, esses novos óbitos elevaram para quatro o número de vítimas dos Estados Unidos.

O rabino Gavriel Holtzberg, que nasceu em Israel mas morava em Nova York desde a infância, e sua mulher, Rivka, também israelense, dirigiam o Chabad-Lubavitch de Mumbai e foram mortos durante os ataques, acrescentou o comunicado.

O filho pequeno do casal, Moshe, foi salvo na hora do atentado pela babá.

"Gabi e Rivky Holtzberg fizeram o sacrifício máximo", disse o rabino Moshe Kotlarsky, que trabalhava no braço educacional do Beit Chabad-Lubavitch.

"Como emissários em Mumbai, Gabi e Rivky abriram mão dos confortos que tinham no Ocidente para difundir o orgulho judaico em um lugar do mundo muito freqüentado por turistas israelenses", homenageou o texto.

O assalto foi realizado por unidades de elite de indianos mascarados, deixados sobre o telhado do prédio por um helicóptero. Houve troca de tiros e, no início da noite, a operação teve fim, com uma série de fortes explosões abalaram o imóvel. Pouco depois disso, os comandos reapareceram, ovacionados por uma multidão de indianos reunida nos arredores.

Durante a sexta-feira, intensas trocas de tiros foram ouvidas nos arredores do Taj Mahal, onde o Exército invadiu, com granadas, para desalojar um, ou vários terroristas. A polícia anunciou que explosivos foram descobertos no estabelecimento.

A Índia acusa abertamente o Paquistão, seu vizinho e rival, de estar por trás desses ataques coordenados e muito bem orquestrados, que atingiram uma dezena de alvos em Mumbai, uma cidade com 13 milhões de habitantes. Islamabad continua a negar, de forma veemente, qualquer envolvimento.

Autoridades ocidentais relacionam os ataques à rede terrorista Al-Qaeda.

De acordo com um funcionário do alto escalão do governo indiano, os islamitas responsabilizados pelos atentados teriam feito, com antecedência, um estoque de armas e explosivos em um dos hotéis que tinham como alvo.

O serviço indiano de inteligência prendeu um extremista identificado como Abu Islami. Ele teria reservado um quarto no hotel Oberoi/Trident, aonde chegou quatro dias antes de outros membros do grupo desembarcarem em Mumbai pelo mar.

"Ele veio bem antes da chegada, por navio, de outros terroristas", declarou este dirigente do Intelligence Bureau que preferiu não ter seu nome divulgado.

"Simplesmente, usou o quarto do hotel para armazenar os explosivos", entre eles 40 granadas, "e armamentos, para uma ação de longo prazo", acrescentou.

Segundo a mesma fonte, cartões de crédito e uma carteira de identidade expedida pelas Ilhas Maurício, no Oceano Índico, foram apreendidas no quarto ocupado pelo extremista detido.

Os atentados visavam, sobretudo, aos estrangeiros, mais especificamente hóspedes americanos e britânicos de ambos os hotéis, símbolos da riqueza de Mumbai, assim como o centro judaico.

Os terroristas, armados de fuzis automáticos e de granadas, tinham ainda alvos indianos, como a estação central de Mumbai, onde mataram 50 pessoas. Um hospital que atende crianças e mulheres pobres também foi atacado.

Nove terroristas foram mortos durante as operações, e outro foi preso, enquanto 15 homens das forças de segurança morreram, anunciou o vice-primeiro-ministro do estado de Maharashtra, R.R. Patil.

No Oberoi/Trident, onde 93 reféns foram soltos hoje de manhã, a polícia anunciou ter encontrado 24 corpos e declarou que as operações estavam concluídas.

Quem conseguiu escapar, incluindo policiais e soldados, relatou as cenas de horror vividas nas últimas horas.

"São pessoas sem piedade. Abriam fogo sobre qualquer um que ficasse na sua frente", contou um oficial da Marinha, acrescentando que "havia sangue por toda parte, corpos estendidos em todo lugar".

A autoria dos ataques, que atingiram o coração da 10ª potência econômica mundial, foi reivindicada pelo grupo islamita Mujahedine do Deccan, nome do planalto que cobre o centro e o sul da Índia.

Em entrevista a uma emissora de TV, um dos terroristas do Oberoi/Trident disse que o grupo reivindicava o fim das "perseguições" aos muçulmanos da Índia, uma forte minoria de 150 milhões de pessoas, vítimas de violência no passado, nesse país de 1,2 bilhão de habitantes, hindus em sua maioria.

Segundo a agência de notícias indiana PTI, que cita fontes oficiais, três extremistas, entre eles um paquistanês, foram presos no Taj Mahal.

Eles pertenceriam, de acordo com a agência, ao Lashkar-e-Taiba, um grupo islamita com base no Paquistão, conhecido, principalmente, por ter atacado o Parlamento indiano em 2001. Esse atentado colocou Índia e Paquistão à beira de uma nova guerra.

phz-sas/afp-tt/LR

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