Terror em Mumbai aumenta hostilidade entre religiões na Índia

Shilpi Singh. Nova Délhi, 7 dez (EFE).- O atentado de Mumbai (ex-Bombaim) aprofundou a hostilidade entre hindus e muçulmanos na Índia, com reações de suspeita em direção a uma minoria que compõe 13% da população e chamadas à guerra contra o vizinho Paquistão.

EFE |

"Infelizmente, cada vez que acontece algo assim, a comunidade (muçulmana) se sente mais excluída", disse à Agência Efe a professora da Universidade de Délhi Vijaya Venkataraman.

A imagem dos muçulmanos da Índia "é afetada pelo terrorismo há muito tempo" e os ataques "só colaboram para piorá-la", lamentou um professor espanhol da universidade muçulmana de Délhi Enric Donate.

Donate admite que, até que não se identifique como "espanhol e cristão", encontra reações de "desconfiança" quando diz que é professor da Universidade Jamia Milia.

Embora se some a uma série de atentados que ocorreram em diversas cidades indianas nos últimos seis meses, a audácia do ataque a Mumbai, a resistência dos terroristas durante dois dias e meio e a atenção internacional captada marcaram uma diferença na Índia.

A ira da população não termina e o Governo, que desde 2004 impulsionou um processo de diálogo com o Paquistão e medidas para diminuir a discriminação sofrida pela população muçulmana dentro da Índia, se envolveu em uma grave disputa com o país vizinho.

"A situação me preocupa muito. Estão surgindo sentimentos muito perigosos. Meus amigos, que nunca foram antimuçulmanos e até discutiam com os que os criticavam, agora pensam que é preciso caçá-los e matá-los", diz a residente de Mumbai Aditi Varma, contatada pela Efe por telefone.

A cidade de Mumbai abriga uma grande população muçulmana, que também se concentra em estados do norte da Índia.

Varma, jovem residente de Mumbai, advertiu que esses sentimentos, "se não a uma guerra, podem levar a explosões de violência comunal no país como aconteceu antes em Gujarat".

"Isso afetará todos nós" porque "nestes incidentes, não se vê quem é morto", afirmou.

Ontem se lembrou na Índia o 16º aniversário de um episódio que contribuiu para minar as relações entre as duas principais comunidades religiosas do país: a demolição por radicais hindus da mesquita de Babri, uma jóia do século XVI na região nortista de Ayodhya erguida no local onde nasceu o mitológico deus hindu Ram.

O incidente gerou uma onda de violência em toda a Índia na qual se calcula que morreram duas mil pessoas.

Também serviu de pretexto para os terroristas que assolaram Mumbai pela primeira vez, em março de 1993, com bombas em pontos estratégicos da cidade que mataram 257 pessoas.

O incêndio de um trem de peregrinos hindus que voltava do lugar santo de Ayodhya foi o desencadeante de outro dos capítulos negros da História indiana recente: o massacre, ainda impune, de mil muçulmanos em fevereiro de 2002 nas mãos de hindus do estado de Gujarat.

"Não me agradam as reações que observo. Há gente que diz que o Paquistão deveria ser riscado do mapa", diz Venkataraman.

"Devemos ter muito cuidado para não compararmos os terroristas com uma comunidade", advertiu o professor de História da Universidade de Délhi Devesh Vijay, uma opinião compartilhada pela chefe do Departamento de Híndi, Asha Gupta, que lembrou que também há "exemplos de outros terroristas de outras comunidades na Índia".

Para Vijay, que defende a mensagem de não-violência de Gandhi, os indianos não deveriam esquecer que o ocorrido é parte de "decisão sistemática maior".

"E nesse sentido, nós também somos culpados como eleitores. Se delinqüentes são escolhidos para o Parlamento, então cada cidadão é responsável" pelas desgraças que padece a Índia, opinou o historiador.

"Necessitamos fazer mais amigos e não jogá-los aos grupos que estão por trás dos terroristas", argumentou. EFE ss/rr

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