Terremoto reacende discussão sobre o papel das tropas brasileiras no Haiti

O terremoto que devastou a cidade de Porto Príncipe, capital do Haiti, na noite da última terça-feira, e vitimou pelo menos 14 militares brasileiros, reacendeu a discussão sobre permanência e o papel das tropas brasileiras naquele país. Todos concordam que a ajuda financeira e humanitária emergencial, hoje, é necessária para fazer com que o país possa se reconstruir. Mas as avaliações divergem sobre como isso deve ser feito.

Rodrigo Haidar e Fred Raposo, iG Brasília |

O secretário de relações internacionais do PT, Valter Pomar, afirma que o governo brasileiro está fazendo o que tem de ser feito no momento. É necessário levar suprimentos, garantir a segurança local e o sepultamento digno das vítimas. Trata-se de um compromisso humanitário, diz.

Mas Pomar ressalta que é uma boa hora de cobrar de países como os Estados Unidos, Canadá e França o envio de dinheiro que foi prometido há tempos para reorganização do Haiti. Quando se decidiu pelo envio das tropas àquele país, os Estados Unidos, por exemplo, prometeram ajudar financeiramente, mas não cumpriram o combinado. O secretário afirma que o dinheiro é fundamental para o sucesso da missão brasileira, ainda mais agora. 

Sobre a presença das tropas do Brasil no país, Valter Pomar afirma que é outra discussão e ela deriva de uma decisão das Nações Unidas, de um pedido do governo do Haiti e foi aprovada pelo Congresso Nacional. Quanto à sua legitimidade, então, não há dúvidas. Mas o secretário petista esclarece que a posição do partido é a de que a presença militar seja substituída o mais rápido possível por uma presença humanitária. Nenhum país quer manter tropas em outro país indefinidamente. A ideia, e isso já estava sendo feito, é trocar as tropas por polícia, engenharia, educação. 

O deputado Paulo Delgado (PT-MG), ex-secretário de relações internacionais do partido, também defende o envio de inteligência para a missão brasileira no Haiti. É fácil mandar só recursos, é preciso mandar inteligência, engenharia. É mais do que ajudar os feridos, é preciso prevenir os futuros desastres, assinalou Delgado. 

Ao avaliar a participação brasileira no país caribenho, o deputado compara a uma retribuição da solidariedade internacional que o Brasil recebe em episódios como o desastre em Santa Catarina ou quando necessita de remédios. No entanto, reforça que o posicionamento geológico do Haiti acentua a fragilização política do país.

É preciso tirar Porto Príncipe de cima da fenda geológica. Não é possivel o prédio da ONU cair. Um terremoto com esse grau na Califórnia não derruba um prédio, compara o deputado. Nossa capacidade de ação social é reconhecida e temos uma engenharia forte. A solidariedade internacional tem que ajudar o Haiti a construir melhor edificações.

Delgado destaca o papel brasileiro no país caribenho como relevante, desde quando o conflito estourou, em 2004. Porém, critica os avanços no campo político. Pelo menos (a missão brasileira) estancou a degradação, embora não tenha avançado da organização social. O sistema político é selvagem, não democrático, há muita corrupção. Mas imagina se você tira a ONU de lá, ironizou. 

O presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Eduardo Azeredo (PSDB), diz que o governo brasileiro vem agindo adequadamente no envio de socorro às vítimas do terremoto. Azeredo esteve no Haiti em agosto e afirma que ficou alarmado com a situação, que já era crítica, e agora certamente está caótica.

O senador sempre foi favorável ao envio das tropas e sustenta que a missão de paz brasileira fez um trabalho fenomenal de combate à violência. Para ele, agora é hora de centrar esforços na recuperação social do país. Azeredo confirma que o país estava estudando a substituição das tropas militares por inteligência, mas acredita isso não acontecerá depois do desastre. 

Com novas eleições previstas naquele país começava a ser estudado o processo de retirada. Com o terremoto, será difícil que isso ocorra porque situações de catástrofe assim costumam ser seguidas de violência, diz. E as tropas brasileiras terão de agir. O que aconteceu no Haiti traz um desafio enorme para a comunidade internacional. E a França, antiga colonizadora do país, tem de ter um papel de destaque nesse processo, conclui. 

Erro político

Para o presidente nacional do PPS, Roberto Freire, a presença de tropas brasileiras no Haiti é um erro. Não havia guerra no Haiti. Logo, não se tratou de missão de paz. Não são capacetes azuis, diz. Freire afirma que o Brasil, desde sempre, deveria ter enviado apenas ajuda humanitária ao país, não tropas: O Brasil aceitou uma imposição do governo americano e enviou militares depois de um golpe de Estado, para garantir um mínimo de tranquilidade lá. 

Quando o Congresso Nacional aprovou o envio de tropas brasileiras em 2004, o PPS votou contra com o argumento de que um governo que se diz de esquerda não poderia aceitar a imposição do governo dos EUA para participar do golpe de Estado. Na ocasião, Freire defendeu que não é papel do governo brasileiro interferir nas questões internas de qualquer país latino-americano.

O presidente do PPS mantém a posição, porém reconhece o sucesso da missão capitaneada pelos militares brasileiros. Mas o sucesso se deve mais pelas características dos brasileiros que lá trabalham do que por qualquer outro motivo.

Colega de partido de Freire, o deputado Raul Jungmann (PPS-PE) avalia que a discussão sobre a presença das tropas brasileiras acabou superada pelos recentes acontecimentos. Politicamente, as tropas não deveriam ter sido enviadas. Mas é preciso reconhecer que fizeram um trabalho que tem sido exemplo para o mundo. Para o deputado, a discussão agora tem de ser focada na ajuda humanitária para a reconstrução do país.

O líder do DEM no Senado, José Agripino (RN), afirma que o Brasil vem substituindo o papel da ONU e que, nos cinco anos de missão, não se chegou a um resultado positivo". Agripino chamou atenção para os valores que o País repassará à nação caribenha R$ 15 milhões em comparação a outras nações européias. A ação de solidariedade é benfazejo, mas as nações têm que dar o que devam e o que efetivamente possam dar, pontuou Agripino. 

Já o presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), apoiou a ação do governo brasileiro. Acho que o Brasil toma o caminho correto em apoiar um país tão pobre como o Haiti em meio a essa catástrofe, sublinha Maia. O governo brasileiro tem mais compromisso com o Haiti do que os países europeus. A relação que o governo Lula estabeleceu ao longo dos anos independente de valores.

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