Tensão entre Israel e vizinhos e questão palestina pressionam EUA

Washington observa tenso deterioração entre seus aliados Israel, Egito e Turquia, enquanto palestinos buscam reconhecimento na ONU

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O primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, é visto em tela ao discursar para membros da Liga Árabe no Cairo, Egito, onde criticou duramente Israel na terça-feira
Os EUA observam com cautela a deterioração das relações entre os seus aliados Israel, Egito e Turquia, que ameaça a estabilidade do Oriente Médio e as metas americanas para a região.

O problema simultâneo entre o Estado judeu e duas nações muçulmanas que têm sido um baluarte de segurança e diplomacia para Israel acontece no momento em que os palestinos se preparam para buscar reconhecimento na ONU neste mês. A ação da ONU, que os EUA têm combatido sem sucesso , deve complicar ainda mais os esforços de paz, deixar Israel ainda mais isolado e forçar Washington a assumir a posição incômoda de tomar o lado de Israel a despeito de outros aliados e parceiros.

A grande quantidade de ligações telefônicas feitas entre o presidente Barack Obama, seus principais assessores de segurança nacional e israelense, egípcios e outros parceiros da região sobre o ataque de sexta-feira à Embaixada de Israel no Cairo destacou as preocupações americanas sobre a situação. O ataque poderia ter prejudicado o acordo de paz israelo-egípcio, que tem sido um dos alicerces da estabilidade no Oriente Médio há três décadas. Juntamente com as preocupações sobre Egito e Israel, as autoridades americanas temem o discurso rigoroso adotado pela Turquia recentemente sobre problemas em suas relações com Israel.

Pelo telefone, na sexta-feira, Obama reiterou ao premiê israelense, Benjamin Netanyahu, o apoio dos EUA , enquanto manifestantes egípcios saqueavam a embaixada de Israel. A secretária de Estado Hillary Clinton falou duas vezes com o ministro do Exterior egípcio, Muhammed Amr, para lembrá-lo da obrigação do Egito em proteger as propriedades e equipes diplomáticas em seu país, bem como para enfatizar a importância dada pelos EUA à paz entre Egito e Israel.

O Departamento de Estado disse que o governo estava "satisfeito" com as declarações das autoridades israelenses e egípcias que procuraram aliviar as tensões. Mas as autoridades não deixaram dúvidas quanto à seriedade do assunto e suas implicações, sobretudo tendo em conta a natureza já precária do relacionamento entre Israel e Turquia e a iminente requisição palestina na ONU.

Victoria Nuland, porta-voz do departamento, classificou os ataque à embaixada de um "incidente muito grave" e "extremo" que levou grande preocupação aos mais altos níveis do governo.

"Não é simplesmente sobre esse incidente isolado, é sobre a importância de manter a estabilidade e a paz em toda a região, não apenas dia a dia, semana a semana, mas mês a mês, o que nos leva de volta às mensagens que temos passado em relação às reuniões que acontecerão em Nova York na próxima semana", disse, referindo-se à sessão anual da Assembleia Geral da ONU, que começa no dia 20.

Além da ligação entre Obama e Netanyahu na sexta-feira e da feita entre Hillary e Amr, o secretário de Defesa Leon Panetta conversou com o ministro da Defesa israelense, Ehud Barak, e o líder militar egípcio Mohammed Hussein Tantawi na sexta-feira, segundo o Pentágono. O almirante Mike Mullen, presidente do Estado-Maior Conjunto dos EUA, conversou com seu colega israelense na sexta-feira e seu colega egípcio no domingo.

À medida que essas ligações telefônicas progrediam, o diplomata americano para o Oriente Médio, Jeffrey Feltman, conversou com o chefe do Conselho de Cooperação do Golfo e oficiais de alto escalão do Egito, Jordânia, Catar, Kuwait e Arábia Saudita.

"Nossa esperança é evitar qualquer grande repercussão na região", disse Nuland. "O fato de que o governo egípcio e o de Israel abordaram a importância de manter essa situação sob controle, e o fato de que agora ela esteja sob controle, nos dá alguma esperança para seguir em frente. Mas, obviamente, todos precisamos estar vigilantes."

Feltman pediu que os oficiais aconselhem a calma e encorajem um retorno a uma situação "onde o Egito e Israel possam estar confiantes de sua relação e nos acordos que têm uns com os outros", citou Nuland.

"É importante não apenas resolver o problema imediato de segurança em torno da missão israelense no Cairo, mas também no que diz respeito à região como um todo; nos aproximamos de um período muito complicado com as reuniões em Nova York."

O governo americano ameaçou vetar uma resolução que favoreça um Estado palestino no Conselho de Segurança da ONU, mas não pode impedir a jogada na grande Assembleia Geral, onde sua aprovação é quase garantida. A aprovação de um Estado palestino pela Assembleia seria simbólica, mas validaria o argumento palestino de que deve seguir adiante por conta própria em vez de esperar que Israel chegue a um acordo sobre as fronteiras e outras questões que têm adiado a criação de um Estado há anos. Israel e os EUA dizem que o Estado palestino é seu objetivo, mas que ele deve ser alcançado pela negociação.

"Um esforço unilateral dos palestinos para conseguir um Estado na ONU seria contraproducente," afirmou o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney. "Mesmo que essas ações são bem intencionados, eles não vão conseguir um Estado."

Negociações diretas, segundo Carney, são "o único caminho para o tipo de solução que os palestinos e israelenses querem legitimamente. Precisamos chegar a isso por meio de negociações diretas. Não é certo buscar essa solução pela ONU".

Egito e Turquia são propensos a ficar do lado dos palestinos, deixando apenas os EUA e alguns outros países do lado de Israel. Oficiais do governo continuam a pressionar os palestinos para que abandonem suas aspirações na ONU em prol de uma alternativa melhor, possivelmente uma declaração de apoio do quarteto diplomático de pacificadores internacionais do Oriente Médio – EUA, União Europeia, Rússia e ONU.

No entanto, em um golpe à unidade do quarteto, a Rússia afirmou na segunda-feira que apoiará qualquer esforço palestino na ONU . Para complicar ainda mais a situação, um influente ex-diplomata saudita disse que as relações de seu país com os EUA sofreriam caso Washington vetasse uma resolução do Conselho de Segurança.

Nessa mistura, as relações entre Israel e Turquia sofreram abalos nas últimas semanas, quando Israel se recusou a pedir desculpas pela invasão de uma flotilha com destino a Gaza ano passado, que matou oito turcos e um turco-americano a bordo de um navio turco que tentava romper o bloqueio naval de Israel a Gaza.

O premiê turco Recep Tayyip Erdogan disse na segunda-feira que o ataque foi " motivo de guerra ", mas acrescentou que seu país mostrou "paciência" e se absteve de tomar qualquer ação. Mas, neste mês, a Turquia suspendeu seus laços militares com Israel, expulsou os principais diplomatas israelenses do país, comprometeu-se com a campanha em apoio do Estado palestino e prometeu enviar a Marinha turca para escoltar navios a caminho de Gaza no futuro.

O embaixador da Turquia nos EUA, Namik Tan, disse na segunda-feira que as tensões com Israel não devem criar uma sombra sobre as relações com Washington. "Nosso relacionamento com os EUA não decorre das relações que temos com qualquer outro país. Esse relacionamento tem sua própria posição", disse.

*Por Matthew Lee

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