Taylor depõe em Haia e nega acusações

O ex-presidente da Libéria Charles Taylor se disse inocente, nesta terça-feira, diante do Tribunal Especial para a Serra Leoa (TESL) em Haia e negou ter recebido diamantes em troca de armas dos rebeldes serra-leoneses, os quais é acusado de ter dirigido.

Redação com agências internacionais |

AP
Taylor fala durante julgamento
Taylor fala durante julgamento

"Nenhum ser humano pode crer que é verdade que negociei com a RUF, recebendo diamantes em troca de armas ou recebendo diamantes em troca de qualquer coisa que seja", afirmou Taylor, que começou a depor nesta terça-feira como parte do processo.

Taylor é acusado de ter dirigido os rebeldes da Frente Revolucionária Unida (RUF, sigla em inglês) que assolaram a Serra Leoa, fornecendo-lhes armas e munições em troca de um acesso privilegiado aos recursos naturais, principalmente diamantes e madeiras preciosas, deste país vizinho da Libéria.

Eleito à presidência da Libéria em 1997, Charles Taylor é acusado de 11 crimes de guerra e crimes contra a humanidade, entre eles homicídio, estupro e recrutamento forçado de meninos-soldados, cometidos durante a guerra civil em Serra Leoa, que deixou 120 mil mortos e milhares de mutilados entre 1991 e 2001.

"Sou inocente de todas essas acusações. Todo esse caso é uma encenação, uma enganação baseada em mentiras", clamou o réu.

Taylor é a primeira testemunha convocada pela defesa, que começou a apresentar seus argumentos ao tribunal na segunda-feira. O julgamento fora suspenso em fevereiro, depois de a acusação ter convocado sua última testemunha.

Defesa

O depoimento de Charles Taylor, primeiro chefe de Estado africano a ser julgado por um tribunal internacional, deve durar várias semanas.

"Taylor tem agora a oportunidade de tentar fazer desacreditar as provas apresentadas pelas 91 testemunhas da acusação que depuseram contra ele", declarou o procurador do TESL, Stephen Rapp, entrevistado nesta terça-feira pela AFP. "Assim que ele terminar, estaremos prontos para o contra-interrogatório", acrescentou.

"Não dei nenhuma ajuda militar à RUF para invadir Serra Leoa", ainda afirmou o réu, garantindo pelo contrário que fez "de tudo" para levar este país "à mesa das negociações de paz".

Questionado sobre as amputações em grande escala de civis pelos rebeldes da RUF, ele afirmou: "é impossível que eu tenha ordenado isso".

"Como presidente da Libéria, minha principal preocupação era: 'como vamos reconstruir este país devastado pela guerra, cuja economia está em ruínas?' Durante toda minha vida, lutei para fazer o que pensava ser justo e do interesse da justiça", prosseguiu o ex-presidente africano.


Instabilidade política

A guerra civil na Libéria começou em 1989 e Taylor se elegeu presidente do país em 1997, depois de ter assinado um acordo de paz em 1995.

Em Serra Leoa, a guerra civil começou em 1991. Durante uma década de conflitos, milhares de pessoas morreram no país e em levantes associados na Libéria. A instabilidade política se espalhou até para os vizinhos Costa do Marfim e Guiné.

Em 1999, rebeldes liberianos se insurgiram contra o governo Taylor, mas ele conseguiu se manter no poder até 2003, quando foi expedido um mandado de prisão contra ele. O ex-presidente disse que os chefes de Estado da África Ocidental lhe prometeram que ele não seria perseguido se aceitasse se exilar na Nigéria, o que fez no mesmo ano. Porém, foi detido em março de 2006 no exílio e transferido em seguida à Holanda, onde está preso até agora.

"Não consigo entender todas as intrigas que foram tramadas contra mim. Estou furioso com Obasanjo", declarou, referindo-se ao presidente da Nigéria Olusegun Obasanjo.

O julgamento na Corte Especial criada pelas Nações Unidas para Serra Leoa, em Freetown, capital do país, foi transferido em junho de 2007 para a Holanda, em meio a temores de que isso pudesse criar instabilidade no país e nos vizinhos da Libéria. Se for condenado à prisão, Taylor deve cumprir sentença na Grã-Bretanha. O tribunal deve declarar o veredicto em 2010.

(Com informações da AFP e da BBC)

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