Táxis pilotados por mulheres geram polêmica na cidade do Cairo

Francisco Carrión. Cairo, 13 fev (EFE).- As mulheres assumiram o volante dos táxis na caótica cidade do Cairo, após o consentimento dos juízes islâmicos e a oposição dos taxistas homens e, surpreendentemente, de grupos que defendem os direitos da mulher.

EFE |

"Sem mais taxistas estúpidos, sem mais comentários e brincadeiras tolas. É tempo para a condução segura e elegante", reivindica um dos lemas com o qual se anuncia na internet o novo serviço, batizado como 'táxi rosa' e pensado só para elas.

Cinco mulheres já conduzem táxis amarelos na capital egípcia, mas a empresa quer pintá-los de rosa e está à espera da decisão do governador do Cairo, uma cidade na qual o táxi foi até o momento território de homens.

"Me sinto feliz", admite à Agência Efe Inas Hassan Ali, uma das taxistas que há um ano faz corridas pela cidade, mas acredita que com a chamativa cor rosa o serviço será "mais cômodo" para ela e seus clientes.

"Aceito famílias, portanto não terei de expulsar o marido do táxi se ele vier com sua esposa e seus filhos", indica Inas, uma assistente social que trocou a escola pelo táxi porque dirigir é "um tratamento e uma oportunidade de sentir a rua".

Cerca de 20 mulheres e seis telefonistas serão as responsáveis pelo serviço de táxi feminino que tem como missão lutar contra o assédio sexual.

"A experiência foi muito boa, porque as mulheres são melhores que os homens. Elas têm menos problemas e são mais limpas", explica Emad Abdelrraman, diretor-adjunto da empresa que implantou o serviço.

Os 'táxis rosas', que já circulam por cidades de todo o mundo, buscarão espaço na capital egípcia em meio à numerosa oferta de táxis e somarão sua cor ao tradicional preto, e aos novos branco e amarelo.

Mas os colegas homens não receberam bem a notícia. Sahmi, um taxista de 37 anos, diz visivelmente alterado que "dirigir um táxi é um trabalho arriscado e pouco adequado para uma mulher".

"No Egito, a maioria dos acidentes de trânsito é causado por mulheres", acrescenta. Ele augura que, com esses táxis, as ruas do Cairo serão mais "perigosas" e menos transitáveis.

"Não sabem nem trocar um pneu!", protesta Mohammed, um taxista entre várias dezenas que se queixam que "elas não conhecem as ruas do Cairo como os homens".

"Na Espanha há mulheres taxistas?", pergunta Mohammed. E após a resposta afirmativa, a surpresa abre espaço a outra dúvida: "E não há problemas?".

Alguns clientes contaram a Inas que na Europa é normal ver uma mulher ao volante de um táxi. "Por que não podemos fazer o mesmo no Egito?", pergunta-se em seguida.

A principal organização em defesa da mulher, o Centro Egípcio de Direitos da Mulher, também critica o projeto, mas por motivos diferentes. Para a entidade, o projeto "segrega a mulher e é uma tentativa ingênua e absurda de facilitar o assédio sexual", denuncia em comunicado.

Durante o primeiro semestre de 2009, as violações e o assédio sexual foram os delitos mais cometidos contra a mulher no Egito, segundo esta organização.

"Como podemos construir um futuro para a sociedade se tentamos resolver os problemas com segregação?", questiona o comunicado.

Para esta organização, o problema requer "trabalho duro e estudar as raízes" em vez de isolar as mulheres, como acontece no metrô do Cairo, que dispõe de vagões reservados para elas.

No entanto, o responsável da empresa pelo serviço se defende: "não queremos voltar ao passado, mas sim oferecer um serviço útil à mulher, que nunca antes tinha contado com uma licença para dirigir táxis nesta cidade".

"As mulheres querem se sentir livres no táxi", acrescenta.

Em um país de maioria muçulmana não podia faltar o consentimento da jurisprudência islâmica. O beneplácito foi concedido em uma fatwa (decreto religioso) que acaba de publicar a respeitada instituição religiosa de Al-Azhar e na qual se aprova esta nova empresa.

A autorização dá as boas-vindas a estes táxis porque eles representam "um passo importante" para evitar o assédio às mulheres.

"Isto não é discriminação, mas é o que o islã dita às mulheres", explica a fatwa, que solicita leis que protejam essas trabalhadoras de seus adversários. EFE fcm/sa

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