Tarek Aziz: o porta-voz internacional de Saddam Hussein

Único cristão entre os assessores de Saddam Hussein, Tarek Aziz, que teve o julgamento adiado para o dia 20 de maio após uma breve sessão de abertura nesta terça-feira em Bagdá, foi durante vinte anos o porta-voz de um país inicialmente apoiado pelo Ocidente, e depois condenado.

AFP |

Aziz e outras sete pessoas são julgadas pela execução de 42 comerciantes de Bagdá em 1992, acusados de terem aumentado os preços dos produtos quando o Iraque sofria com sanções da ONU.

Amigo do ditador iraquiano, ele foi ministro da Informação, e depois vice-primeiro-ministro de 1979 a 2003, tendo como função complementar a de ministro das Relações Exteriores de 1983 a 1991.

Ele se rendeu às tropas americanas no final do mês de abril de 2003, e está detido há cinco anos em uma prisão americana nas imediações de Bagdá, apesar dos apelos de sua família por sua libertação por razões de saúde.

Tarek Aziz nasceu em 1936 de uma família pobre da região de Mossul (norte), e rapidamente ascendeu no governo iraquiano, graças ao seu domínio perfeito do inglês e a sua competência como incansável advogado de um regime cada vez mais contestado.

Tornou-se a face do Iraque em guerra quando foi encarregado por Saddam Hussein de mobilizar o apoio do Ocidente em favor do regime laico baassista na década de 80, após o início da guerra com o Irã, considerado após a Revolução Islâmica uma teocracia ameaçadora.

Aziz era uma figura bem aceita dos dois lados da Guerra Fria. Foi recebido pelo presidente Ronald Reagan na Casa Branca, tendo sido considerado na época o artesão da retomada das relações diplomáticas entre Washington e Bagdá em 1984, e conquistou também o apoio de Moscou.

O papel deste homem, de baixa estatura, com o rosto escondido por óculos largos, se tornou cada vez mais difícil -- e até impossível-- após a invasão do Kuwait pelo Exército iraquiano, em agosto de 1990.

Erro estratégico de Saddam Hussein, que não tinha mais a proteção de uma URSS que começava a ruir, esta decisão marcaria o início do naufrágio de uma nação.

Tarek Aziz é conhecido por ter representado um governo que desafiou de forma direta a nova ordem mundial dominada pelos Estados Unidos, e que internamente calava qualquer um que ousasse se opor à vontade de seu ditador.

Aziz entrou no final dos anos 50 no partido Baath, uma organização clandestina que combatia a monarquia apoiada pelos britânicos, assim como o poderoso Partido Comunista iraquiano.

Ele era jornalista e organizou a propaganda do Partido Baath, legalizado em 1963 após a derrubada do coronel Abdelkarim Kassem por um golpe de militares baassistas e nacionalistas, aliados contra os comunistas.

Quando os baassistas chegaram finalmente ao poder após o golpe de Estado de 1968, Tarek Aziz escalou a hierarquia do governo para ocupar em 1977 o órgão supremo, o Conselho de Comando da Revolução.

Em 1979, atrelou definitivamente seu destino ao de Saddam Hussein, quando este, então vice-presidente, derrubou o presidente Ahmed Hassan al-Bakr, e tomou o controle do país.

Sem ser um ator central, foi cúmplice de todas as crueldades e brutalidades de um regime de terror, que iam da eliminação de opositores políticos aos massacres de curdos e xiitas.

Defendeu até o último momento aquele que foi seu mestre: durante o processo de Saddam Hussein se manifestou em maio de 2006 para defender "um homem bom e generoso, e que amava seu povo".

Aziz denunciou "a grande mentira" das acusações ocidentais a respeito do arsenal iraquiano de armas de destruição em massa e resumiu pela fórmula "petróleo e Israel" as razões pelas quais a guerra de 2003 foi inevitável.

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