Suspeito de massacre no Afeganistão tem 2 filhos e serviu no Iraque

Em sua 1ª missão no país asiático, sargento de 38 anos e há 11 anos no Exército matou 16 civis - incluindo 9 crianças - no domingo

iG São Paulo |

Autoridades dos EUA tiveram dificuldades nesta segunda-feira para entender por que um sargento veterano do Exército, um homem casado e pai de de duas crianças que chegou recentemente ao Afeganistão, deixou sua base um dia antes para assassinar ao menos 16 civis , incluindo nove crianças e três mulheres, em uma área rural do país asiático.

AP
Homens são visto perto de manchas de sangue e restos mortais carbonizados dentro de casa em Panjwai, na Província de Kandahar, onde soldados dos EUA lançou ataque (11/03)
Essa era a primeira vez que o soldado, que previamente havia sido enviado ao Iraque e cujo nome não foi divulgado, atuava no Afeganistão. Com 38 anos, ele serviu ao Exército por 11 anos e foi enviado por três vezes ao Iraque.

Residentes de três vilas no distrito de Panjwai, na Província de Kandahar, descreveram uma aterrorizante série de ataques em que o soldado tentou de porta em porta até eventualmente conseguir entrar e matar em três casas diferentes. O homem reuniu 11 corpos, incluindo os de quatro meninas de menos de 6 anos, e ateou fogo neles, disseram testemunhas. Os ataques deixaram cinco feridos.

A ação devastadora e inexplicável aprofundou o sentimento de cerco contra soldados ocidentais no país, enquanto as denúncias causaram um momento de união entre as três principais facções afegãs: civis, militantes e autoridades do governo .

Reação: Taleban promete vingar civis mortos por soldado americano

Repúdio: Presidente afegão diz que massacre de civis é 'imperdoável'

Enquanto alguns afegãos especularam que houve envolvimento de outros militares, autoridades disseram que o suposto atirador agiu sozinho depois de deixar sua base no sul do Afeganistão, caminhando primeiro para uma vila e então para agrupamento de casas a menos de 500 metros de distância.

Após voltar à sua base e se entregar, ele está agora em confinamento pré-julgamento em uma base da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) enquanto oficiais revisam seu histórico médico e militar. Ele deve enfrentar acusações sob o sistema judicial militar.

De acordo com uma fonte do Congresso ouvida pela Associated Press, o suspeito é de uma brigada Stryker de Washington e foi designado para um programa de estabilização na vila de Belambai, a menos de 1 km de onde aconteceu o ataque. Ele foi enviado ao Afeganistão em 3 de dezembro, mas assumiu a função em Belambai em 1º de fevereiro.

As operações de estabilização fazem parte dos esforços da Otan para fazer a transição para fora do país asiático. Eles atuam em conjunto com habitantes escolhidos por líderes locais para se tornar uma força de vigilância armada e rastrear membros da milícia islâmica do Taleban.

A 3ª Brigada Stryker, do qual o suspeito fazia parte, foi a primeira unidade militar americana a usar um veículo homônimo de infantaria leve, de oito rodas, desenvolvido para tornar o Exército mais ágil em uma era pós-Guerra Fria. A brigada foi enviada três vezes ao Iraque antes de mandar 2,5 mil soldados para o Afeganistão pela primeira vez em dezembro.

O banho de sangue de domingo é o terceiro incidente que contribuiu para elevar a tensão entre EUA e Afeganistão. Há poucas semanas, a queima por soldados americanos de exemplares do Alcorão por na Base de Bagram (norte) - ato considerado uma blasfêmia - desencadeou uma onda de violentas manifestações antiamericanas com quase 40 mortos. No início do ano, um vídeo pareceu mostrar marines (fuzileiros navais) urinando sobre corpos de afegãos .

Repercussão

Em reação ao massacre, o Taleban prometeu nesta segunda-feira vingar os 16 mortos, enquanto o Parlamento afegão exigiu um julgamento público do suspeito.

A milícia, derrubada no fim de 2001 por uma coalizão internacional liderada pelos EUA e que continua sendo combatida apesar de negociações paralelas de paz, prometeu vingança contra os "americanos selvagens e doentes mentais".

"A maioria das vítimas é de crianças inocentes, mulheres e idosos, massacrados pelos bárbaros americanos, que roubaram sem misericórdia suas preciosas vidas e mancharam suas mãos com seu sangue", diz uma nota divulgada na internet.

O Parlamento afegão, por sua vez, pediu que responsáveis tenham um julgamento público. "Pedimos firmemente que o governo americano castigue os culpados e os julgue em um processo público ante o povo afegão", afirma em um comunicado.

No entanto, o Pentágono rejeitou esse pedido, ressaltando que ele será processado pela justiça militar americana. "Existem acordos com o governo afegão no que diz respeito às investigações, e, se for o caso, os julgamentos (serão feitos) pelas vias militares americanas", disse o porta-voz do Pentágono, George Little.

No domingo, o presidente afegão, Hamid Karzai, denunciou "um ato de assassinato, terrorismo e imperdoável " e pediu explicações a Washington.  O presidente americano, Barack Obama, classificou o drama de " trágico e lamentável " e prometeu uma "investigação exaustiva".

O massacre ameaça complicar ainda mais as difíceis negociações em curso entre Washington e Cabul, que tentam chegar a um acordo sobre as condições de uma associação estratégica em longo prazo. O acordo pretende, entre outras coisas, definir a modalidade da presença americana no Afeganistão depois de 2014 , data em que a Otan pretende ter retirado todas as tropas de combate do país.

A eventual criação de bases permanentes é um tema sensível em um país historicamente contrário a qualquer presença militar estrangeira. Washington fracassou quando tentou concluir um acordo similar no Iraque ao não obter do governo de Bagdá uma garantia para a imunidade judicial de seus soldados, e teve de retirar todas as tropas do país .

A Casa Branca, no entanto, negou que a estratégia dos EUA no Afeganistão mudará apesar dos últimos acontecimentos. Segundo o porta-voz Jay Carney, Washington mantém seu compromisso de desarmar e derrotar a Al-Qaeda, assim como capacitar as forças afegãs para garantir sua própria segurança. Além disso, Obama continua comprometido a retirar gradualmente as forças americanas até o final de 2014.

*Com New York Times, AP e AFP

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