Surto da E. coli na Europa é causado por nova cepa da bactéria

Segundo OMS, sequenciamento preliminar sugere que cepa é forma mutante de duas bactérias; surto causou 18 mortes na Europa

iG São Paulo |

AP
Fazendeiro produtor de pepinos em Algarrobo, perto de Málaga, na Espanha. Inicialmente, pepinos espanhóis foram apontados como causa do surto
A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou nesta quinta-feira que o surto de E. coli que atinge a Europa é causado por uma cepa (variação da bactéria) completamente nova. A infecção pode causar a complicação mortal da síndrome hemolítico-urêmica (SHE), que ataca os rins, às vezes causando convulsões, derrames e comas.

Sequenciamento genético preliminar sugere que a cepa é uma forma mutante de duas bactérias E. coli, com genes agressivos que poderiam explicar por que o surto que atinge nove países, principalmente a Alemanha, parece ser tão perigoso, disse a agência.

Segundo pesquisadores da Alemanha, a bactéria tem genes de dois grupos distintos de E.coli: a E.coli enteroagregativa (EAEC) e a E.coli enterohemorrágica (EHEC).

A bactéria contém genes que causam resistência a antibióticos e são similares a uma cepa que causa grave diarreia na República da África Central, de acordo com um comunicado do laboratório chinês BGI, em Shenzhen, que trabalha em conjunto com pesquisadores do Centro Médico Universitário do laboratório Eppendorf, em Hamburgo.

Hilde Kruse, uma especialista em segurança alimentar da OMS, disse à Associated Press que essa é uma "cepa específica que nunca havia sido isolada de pacientes anteriormente". Segundo ela, a nova cepa "tem várias características que a tornam mais virulenta e produtora de toxinas" do que as cepas da E. coli que as pessoas naturalmente carregam em seus intestinos.

A mesma conclusão tiveram cientistas do Instituto de Genômica de Pequim, na China, segundo os quais a cepa é “altamente infecciosa e tóxica”. Até agora, o surto atingiu mais de 1,5 mil pessoas, incluindo 470 que desenvolveram a rara complicação renal da SHE, e deixou 18 mortos - 17 na Alemanha e um na Suécia.

Os pesquisadores não conseguem apontar o que causou a doença, que fez a Rússia estender nesta quinta-feira um banimento à importação de vegetais para toda a Europa.

Segundo Kruse não é incomum que uma bactéria apresente mutação, com mudança de genes. É difícil explicar, no entanto, de onde essa nova cepa pode ter vindo. Ela acrescentou ainda que cepas de bactérias normalmente trocam genes, da mesma forma que o vírus do Ebola entre humanos é uma variante do encontrado em animais.

Surtos prévios da E. coli atingiram principalmente crianças e idosos, mas o surto europeu está desproporcionalmente afetando adultos, especialmente mulheres. Quase todos os doentes vivem na Alemanha ou recentemente viajaram ao país. Dois doentes agora estão nos EUA, e ambos viajaram recentemente para Hamburgo, Alemanha, onde houve muitas infecções.

Proibição russa

A Rússia proibiu nesta quinta-feira a importação de todas as verduras e legumes frescos de países da União Europeia por causa do surto de infecções.

O chefe da agência de proteção ao consumidor da Rússia, Gennady Onishchenko, afirmou que há ordens para interceptar todos os carregamentos provenientes da UE. "A proibição de importar verduras frescas de todos os países da UE entrou em vigor nesta manhã", disse.

Segundo Onishchenko, as verduras que chegaram recentemente da UE "serão apreendidas em toda a Rússia". "Convido todos a renunciar às verduras importadas em favor dos produtos locais", afirmou. Ele criticou também os padrões de higiene alimentar da UE. "Isso mostra que a elogiada legislação de saúde da Europa, que a Rússia era pressionada a adotar, não funciona", afirmou.

A decisão fez a Comissão Europeia (CE) pedir explicações da Rússia por sua decisão "desproporcional". "A comissão escreverá às autoridades russas para pedir explicações. Isso representa entre 3 e 4 bilhões de euros de produtos europeus exportados por ano", disse Frederic Vincent, porta-voz da área de Saúde da CE.

Vários países tomaram medidas para tentar se prevenir do surto, como a proibição da importação de pepinos e a remoção de legumes e verduras das prateleiras dos mercados. As autoridades de saúde também recomendaram às pessoas que lavem bem frutas, verduras e legumes e também pratos e talheres, além de lavar bem as mãos antes das refeições.

Inicialmente, as autoridades alemãs haviam apontado pepinos importados da Espanha como foco do surto, mas depois descartaram a possibilidade e dizem que ainda tentam descobrir a origem da contaminação .

Segundo a BBC, mais de 25% de todos os legumes e verduras exportados pela UE têm a Rússia como destino, tornando o país o maior mercado para os produtores europeus. No início da semana, a Rússia já havia proibido a importação de vegetais crus da Alemanha e da Espanha.

O primeiro-ministro da Espanha, José Luiz Rodríguez Zapatero, criticou a Comissão Europeia e a Alemanha pelas acusações preliminares de que os produtos de origem espanhola seriam fonte da epidemia, e disse que o governo bucaria explicações e reparações.

Agricultores espanhóis disseram que as acusações devastaram a credibilidade e as exportações de produtos espanhóis. Em Valência, fazendeiros despejaram cerca de 300 kg de frutas e vegetais, como repolho, tomate, pimenta, pepino, na frente do consulado alemão.

O chefe do instituto de saúde pública que lidera o combate ao surto de E.coli na Alemanha afirmou à BBC que pode levar meses para que a epidemia seja contida. Segundo Reinhard Burger, presidente do Instituto Robert Koch, é possível que nunca se descubra a fonte das infecções.

Além da Alemanha, outros oito países europeus já registraram casos de infecção pela E.coli - Áustria, Dinamarca, Holanda, Noruega, Espanha, Suécia, Suíça e Grã-Bretanha.

A atual epidemia já é considerada a terceira maior da história envolvendo a bactéria E.coli. No ano de 1996, 20 pessoas morreram em uma epidemia no Japão, que registrou mais de 9 mil infectados. Em 2000, sete morreram por um surto causado pela bactéria no Canadá.

*Com BBC, AP, AFP e EFE

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