Supermercados chineses retiram laticínios de prateleiras

Lojas e supermercados em toda a China estão retirando laticínios de suas prateleiras após revelações de que leite na forma líquida foi contaminado ao ter adicionado leite em pó para bebês.

BBC Brasil |

O órgão do governo que supervisiona a qualidade disse que quase 10% das amostras de leite de três grandes fornecedores do país e que foram analisadas nos últimos dias continham melamina, uma substância utilizada na fabricação de plástico.

No website do órgão disse que leite dos dois maiores produtores do país - Mengniu Dairy Group e Yili Industrial Group - continham até 8,4 milligrams de melamina por quilo.

Produtos da Bright Dairy, sediada em Shangai, também apresentaram contaminação.

Quatro bebês morreram e mais de 6 mil crianças ficaram doentes depois de beber leite feito à partir de pó. Quase 160 sofrerem insuficiência renal.


Consumidor observa prateleira vazia em mercado chinês / AP

Hong Kong

Embora as autoridades chinesas tenham tentado evitar o pânico insistindo que a maior parte do leite no país é segura para consumo, a reação às notícias de contaminação foi rápida.

Nesta sexta-feira, dois supermercados em Hong Kong, Wellcome e Park'n Shop, retiraram de venda laticínios da marca Mengniu.

Um dia antes, o governo de Hong Kong fez recall de produtos da Yili, depois que testes revelaram que leite, sorvete e iogurte estavam contaminados com melamina.

Varejistas em Cingapura também receberam a recomendação de retirar sorvetes feitos com iogurte Yili de suas prateleiras.

A rede de lanchonetes Starbucks parou de oferecer leite da Mengniu em dois terços de suas lojas na China, embora tenha destacado que nenhum de seus funcionários ou fregueses ficou doente por causa do produto.

União Européia e os Estados Unidos disseram que querem saber como foi possível que o escândalo se desenvolvesse, para garantir a confiança internacional nos produtos exportados pela China.


Cresce a fila de pais que aguardam por exames médicos / Reuters

Marcas estrangeiras

O crescente escândalo na China envolvendo leite em pó levou consumidores chineses a buscar leite em pó de marcas estrangeiras confiáveis.

O caso sugere que o país ainda não consegue proteger seus cidadãos de produtos alimentícios adulterados.

Apesar de vários outros casos recentes envolvendo alimentos de baixa qualidade, inspetores não impediram que leite em pó tóxico fosse dado a crianças.

Leis rigorosas mas pouco aplicadas parecem ser parte do problema. A China também parece ter vários fornecedores inescrupulosos.

Insuficiência renal

No centro do escândalo em andamento está o Grupo Sanlu, uma companhia baseada na cidade de Shijiazhuang, na Província de Hebei.

Ela tem vendido leite em pó adulterado com o produto tóxico melamina, usado na fabricação de plásticos. Esta substância faz com que o leite em pó aparente conter mais proteína do que realmente possui. Todas as crianças que ficaram gravemente doentes tomaram leite da Sanlu, de acordo com o ministro da Saúde da China, Chen Zhu.

Mas o escândalo não está limitado a apenas uma empresa. Em um desdobramento que certamente vai preocupar as autoridades, os inspetores encontraram melamina no leite em pó produzido por 22 companhias - um em cada cinco fornecedores do produto.

E o escândalo deve se ampliar. Não é só o produto em pó mas, de acordo com o órgão oficial chinês que supervisiona a qualidade de alimentos, quase 10% das amostras de leite de três dos principais laticínios chineses apresentaram contaminação pela melamina, usada na produção de plástico.

As leis chinesas não parecem ser o principal problema, de acordo com uma funcionária em um alto cargo em uma empresa estrangeira de produtos para bebês na China.

"Há leis e leis muito rigorosas. Quando nós queremos lançar um produto, há muitas coisas que temos que fazer", disse a funcionária, que não quis ser identificado.

Ela confirma ainda uma queixa de funcionários públicos do governo central da China, que reclamam com freqüência de que estas leis não são respeitadas.

"Há muita corrupção, e empresas chinesas costumam achar formas de continuar operando", disse a fonte ouvida pela BBC.

Para evitar os problemas agora enfrentados pela Sanlu, esta empresa estrangeira envia seus próprios inspetores para verificar os produtos adquiridos de fornecedores chineses.

Prisões

Assim como mostram disposição para violar regulamentos, alguns fornecedores chineses fornecem produtos alimentares adulterados.

No caso em andamento, a melamina parece ter sido adicionada ao leite fresco antes de ser passado para o Sanlu.

De acordo com o jornal oficial chinês China Daily, um homem preso por envolvimento no escândalo confessou que tinha adicionado melamina no leite, apesar de saber que a substância trazia riscos à saúde.

Ele acrescentou que sua família nunca bebeu o leite contaminado.
Como disse um alto funcionário do governo em uma entrevista coletiva à imprensa na quarta-feira, a China não realizou testes para melamina no leite porque não esperava que alguém usaria essa substância no produto.

"Não há exigências específicas para a inspeção por substâncias tóxicas (...) porque não é permitido adicionar este tipo de substância aos alimentos", disse Li Changjiang, chefe do órgão responsável pela supervisão da qualidade de produtos no país.

A maior condenação do sistema venha, talvez, dos consumidores chineses que comem e bebem produtos comprados em supermercados, feiras e lojas.

"É uma vergonha, ninguém pode comer mais nada", disse Tian Guangcai, que cuida de seu neto de quatro meses. Tian disse que a criança - como tantas outras na China - só bebe leite em pó fabricado por empresas estrangeiras.

As marcas estrangeiras agora estão voando das prateleiras. Wang Wenli, cujo filho de três anos parou de beber leite em pó no ano passado, agora está relutante em deixá-lo tomar leite fresco.

"Pense nisso, se há um problema com o leite em pó então é provável que exista um problema com leite fresco também", afirmou ela.

A reação do governo à preocupação causada pelo leite para crianças em 2004 mostra como é difícil para os consumidores julgarem o que é seguro para consumo.

Na época, os pais de bebês receberam recomendação de escolher uma de 30 marcas aprovadas. Esta mais recente análise revelou que produtos de algumas das firmas aprovadas continham melamina.

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