Super Bill

Gerald, a 100 quilômetros de St. Louis, no Missouri, tem 1,2 mil habitantes, um sinal de trânsito, um chefe de polícia e quatro policiais.

BBC Brasil |

Apesar dos números modestos, o prefeito Otis Schulte garante que é a capital mundial dos laboratórios de metanfetamina, a droga barata que pega e mata não só no interior dos Estados Unidos.

Quando o sargento Bill se apresentou ao prefeito como agente federal da DEA (Drug Enforcement Administration) e da Força Tarefa Multi-Jurisdicional Anti-Narcótico, o chefe de polícia Ryan McCray e o prefeito Schulte acharam que as preces deles tinham sido atendidas.

Bastava formalizar o pedido de ajuda ao Ministério de Justiça nos números de fax e telefone que estavam no cartão de visita com o selo do ministério.

A autorização foi rápida, e o sargento, cabelo buscarré, camisa preta com "Police" escrito no peito, uma estrela de metal seis pontas, daí a poucos dias trafegava pelas ruas de Gerald num Ford Crown Victoria cheio de rádios e luzes.

Ele operava da prefeitura e falava sem parar no telefone. As prisões não demoraram.

Entrava nas casas a la Hollywood. De madrugada, porta abaixo com uma pesada, cartucheira de calibre grosso, acompanhado por dois ou três policiais. Chute na cabeça e cano da arma no olho do suspeito.

O interrogatório era imediato, sem presença de advogados nem leitura dos direitos dos presos - você tem direito de ficar em silêncio, etc...

A maioria dos suspeitos confessava até por escrito. O sargento era a sensação da cidade, segundo os depoimentos do prefeito e do chefe de polícia à imprensa, mas não se gabava. O negócio dele era prender. Fama não tinha importância e não dava papo no boteco local.

Um agente federal numa cidadezinha como Gerald era muito diferente de um dos policiais locais, conhecidos por todos traficantes e sem o peso e o prestígio de um agente de fora durão.

Quando um dos suspeitos perguntou pelo mandado de busca e apreensão e exigiu a presença de advogados, o sargento respondeu que polícia federal não precisava destes papéis e nem deu permissão ao preso de usar o telefone.

Em poucos meses, tinha prendido 17 traficantes. Na cadeia local não cabia tanta gente. O chefe de polícia e o prefeito ficavam pasmos como o agente conseguia tanta informação só pelo telefone.

Depois de uma das batidas, o herói de Gerald comentou com uma das testemunhas que trabalhava para duas agências do governo federal e ela, intrigada, perguntou à repórter do jornal local se era legal ter dois empregos federais.

A repórter, Linda Trest, conseguiu o nome completo do sargento, foi para o computador e pimba! Furou a bolha do herói.

"Isto foi numa sexta-feira", me disse a repórter do Gasconade County Republican. "Meu jornal é semanal, sai nas quartas, mas passei as informações para o prefeito e para o chefe de polícia."
Eles furaram a repórter, mas o chefe de polícia e dois assistentes já perderam seus empregos, e o prefeito não tem chances de reeleição. São matérias de deboche na imprensa nacional.

O sargento Bill Jakob, desempregado e falido, era dono de uma pequena transportadora e tem um currículo de mentiras e pequenos crimes no Estado do Missouri.

Sua cancha de policial vem de uma curta experiência numa cidade a 60 milhas de Gerald e de segurança num estacionamento do Banco Central de St. Louis, de onde trouxe a estrela.

O nome, Força Tarefa Multi-Jurisdicional, foi inspirado no filme Um Tira da Pesada 2, com Eddie Murphy.

Bill Jakob nunca ganhou um centavo com suas prisões. Disse à rede CBS que a intenção dele era só combater o crime, mas quem acredita num homem que mentiu a vida inteira?
Mesmo se a intenção e os resultados foram bons para a sociedade, assumir a identidade de policial é crime.

Todas as prisões dele - e confissões - foram para o lixo, e os suspeitos entraram com processos milionários que vão levar Gerald à falência. O sinal de trânsito poderá ser desligado.

Bill Jakob, num acordo com a promotoria, confessou sua farsa e vai ser condenado a pelo menos cinco anos de prisão, mas ele e a mulher talvez não tenham preocupações com dinheiro por uns tempos. Está negociando os direitos da façanha dele com Hollywood.

99% dos canalhas de Wall Street que estão levando o mundo à falência não vão passar um dia na prisão. Moral da história?

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