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Suíça redime última bruxa morta na fogueira

Virgínia Hebrero. Genebra, 9 mai (EFE).- A última mulher morta na fogueira na Suíça após ter sido acusada de bruxaria foi reabilitada moralmente hoje pelo Grande Conselho (Parlamento cantonal) de Freiburg, que limpou a memória da condenada por meio de uma declaração solene.

EFE |

Catherine Repond, conhecida como Catillon, foi executada em 1731 após ser condenada a morte por bruxaria.

Entretanto, segundo vários historiadores, a vítima confessou o "crime" sob tortura. O assassinato foi tramado pelo poder oligárquico da época para calar uma mulher que sabia demais sobre personalidades da época, como o fato de que alguns deles promoviam falsificação de moedas.

A devolução da honra a Catillon foi promovida por dois deputados cantonais, Jean-Pierre Dorand, historiador, e Daniel de la Roche, os quais tiveram que se conformar com a reparação moral para a vítima e não puderam conseguir uma reabilitação jurídica.

Do ponto de vista legal, a criação do Estado liberal de direito em 1831 representou uma ruptura definitiva com o Antigo Regime.

Por 69 votos a favor, 21 contra e 8 abstenções, os deputados cantonais adotaram a resolução, não vinculativa do ponto de vista legal, com a oposição dos partidos políticos de direita UDC e PLR, os quais consideraram que "é melhor se ocupar dos problemas de nosso tempo".

Esta reabilitação moral abrange não só à última suposta "bruxa" e a outras acusadas pelo mesmo crime, mas também a todas as vítimas do Antigo Regime, como homossexuais, minorias religiosas, presos políticos e todos aqueles que confessaram "crimes" sob tortura.

A historiadora Josiane Ferrari-Clément, autora de um livro sobre Catillon, defende a tese que de que as personalidades locais queriam se desfazer de uma pessoa incômoda, que sabia tudo sobre o tráfico de moedas falsas.

Nascida em 1663, Catillon morava no povoado de Villarvolard, onde levava uma vida boêmia e vivia principalmente de esmolas.

Relacionada com ambientes de má reputação - nos quais aparentemente entrou em contato com o grupo que falsificava moedas -, nada na vida de Catillon podia justificar, segundo a historiadora, que as testemunhas em seu julgamento por "bruxaria" a acusassem de todo tipo de mal, como azedar o leite, estragar queijos e fazer o gado adoecer.

Como exemplo do que chegava a ser dito sobre dela, o beato Nicolas de Montenach, juiz de Corbieres, a trancou em um calabouço em maio de 1731 e a acusou de ter se transformado em raposa.

Tudo isso porque Montenach tinha saído para caçar alguns meses antes e havia ferido uma raposa na pata, e Catillon tinha um de seus pés em péssimo estado.

Apesar de a mulher explicar que tinha sido vítima de um tiro disparado por uma família a qual pediu abrigo em uma noite, o juiz não mudou de ideia: o ferimento se devia ao disparo contra a raposa.

Submetida a torturas, Catherine Repond confessou tudo o que seus carrascos queriam ouvir: que assistia a ritos de magia negra, que dançava com demônios, que tinha se entregado ao diabo em várias ocasiões, até que foi estrangulada e depois queimada em setembro de 1731, com 68 anos de idade.

Os arquivos citados pela historiadora narram que, durante os interrogatórios, Catillon sempre expôs fatos que não eram levados em consideração. Ela inclusive chegou a acusar um padre de tê-la estuprado.

Durante o processo, acusou um homem chamado Jacques Bouquet, um curandeiro que era o pai de dois filhos de sua irmã, de ter construído uma instalação para fundir o metal com o qual fazia moedas falsas.

A historiadora assegura que os juízes faziam de conta que não ouviam tudo isso porque tinham medo. Eles sabiam que Catillon tinha relações na alta sociedade de Freiburg.

Alguns creem inclusive que havia personalidades envolvidas nessa rede de falsificadores, que chegaria até a França, motivo pelo qual tudo era comprometedor - e daí a acusação de bruxaria contra a mulher.

Kathrin Utz Tremp, colaboradora científica dos Arquivos do Estado suíço, estudou as atas do processo de Catherine Repond, e afirma que durante seu processo, ela foi interrogada pelo menos 13 vezes, sendo torturada desde a terceira.

Catillon chegou a ser pendurada por uma corda e depois ter os pés amarrados a pesos de entre 25 e 50 quilos, o que era um método de tortura habitual na época.

"Nessas condições, eu também confessaria que sou uma bruxa, embora nem sequer acredite em bruxaria", afirma a especialista. EFE vh/bba

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