Sudão encerra votações após um pleito marcado por erros e boicote da oposição

Jorge Fuentelsaz. Cartum, 15 abr (EFE).- Os colégios eleitorais do Sudão fecharam suas portas hoje após uma votação que se prolongou durante cinco dias marcada por erros de organização e o boicote dos principais partidos da oposição.

EFE |

As primeiras eleições pluripartidárias em 24 anos enfrentaram muitos desafios, entre eles a grande extensão do país, o analfabetismo, as complicações da votação, a falta de prática em votar e o receio em relação às autoridades eleitorais. Ainda assim, os sudaneses parecem satisfeitos.

"Estas eleições são um passo importante rumo à democracia", afirmou hoje Osman Uzman, um dos diretores da ONG sudanesa Scova, que participou da votação com três mil observadores.

Uzman, que reconheceu a existência de numerosos erros técnicos e logísticos no processo que atrasaram a abertura dos colégios, atribuiu os problemas à inexperiência do país.

Uma inexperiência que deve ser superada com os anos e com a ajuda da comunidade internacional. "Para passar de uma ditadura para uma democracia, a comunidade internacional tem que ter um papel ativo", disse Uzman que, no entanto, se mostrou satisfeito com o êxito "da experiência das eleições".

Ao longo da votação, os observadores internacionais, especialmente o Centro Carter, presidido pelo ex-presidente americano Jimmy Carter, e a missão de observação da União Europeia, liderada por Véronique de Keyser, transmitiram com certas diferenças a mesma ideia.

Embora tenham detectado irregularidades e situações de violência, como as denunciadas por grupos políticos no sul do país, os dois grupos de observadores justificaram os erros técnicos e logísticos e mostraram sua esperança no bom andamento do processo.

"Se tivermos êxito em tranqüilizar um pouco o desenvolvimento da votação, e se as pessoas conseguirem votar nos centros em que foi impossível votar por motivos logísticos, ficaremos contentes", disse De Keyser na terça-feira.

No entanto, grande parte da oposição não quis participar da experiência democrática e denunciou que a fraude começou muito antes das eleições.

"O problema começou com a limitação das circunscrições, o registro dos eleitores e a formação da Comissão Eleitoral", afirmou Latif Joseph Sabag, membro do escritório política do Partido Al Umma, à Agência Efe. Após denunciar irregularidades e exigir o adiamento da votação, O Al Umma foi o principal grupo da oposição a boicotar as eleições.

"São eleições pluripartidárias controladas por um único partido", comentou Sabag ironicamente, em referência à sigla governamental Partido do Congresso Nacional, favorita a vitória no pleito.

Com o boicote, o Al Umma, o Movimento Popular de Libertação do Sudão e o Partido Comunista esperam deslegitimar o processo que, asseguram, tem como objetivo defender o presidente Omar al-Bashir das acusações do Tribunal Penal Internacional de crimes de guerra e lesa-humanidade por sua vinculação à guerra de Darfur.

O conflito, que explodiu em fevereiro de 2003, deixou mais de 300 mil mortos e milhões de refugiados.

Por sua vez, a Comissão Eleitoral e o Governo não esconderam seu desejo de elevar as cotas de participação, que segundo assegurou hoje o Scova, estão em 65% faltando os dados do último dia de votação.

Hoje foi declarado feriado para permitir que aqueles que até agora conseguiram ir às urnas votem antes do fechamento dos colégios eleitorais às 18h local (12h, Brasília).

Um dos eleitores, Khaled Mohammed, confessou à Efe na porta de um centro em Cartum Bahri, cidade vizinha de Cartum, que veio votar hoje porque era feriado e ressaltou que era funcionário e que nos quatro dias anteriores não tinha conseguido aparecer no colégio eleitoral.

Em três centros visitados pela Efe em Cartum Bahri, em Umm Durman, cidade gêmea da capital sudanesa e em Cartum, a percentagem oferecido pelos presidentes das mesas eleitorais oscilava entre os 50 e os 62%.

"O dia que mais eleitores votaram foi o segundo; hoje está sendo o dia mais calmo", afirmou Muhammad Issa, presidente do centro eleitoral número 5 de Umm Durman.

Amanhã começa oficialmente a apuração. No entanto, hoje, apesar do calor e da tempestade de areia que os sudaneses conhecem como "Kataha", nos semáforos das ruas do centro da capital já eram vendidas bandeiras e cachecóis com a foto do candidato favorito à Presidência, Omar al-Bashir. EFE jfu/pb

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