Sudanês se emociona ao ver colega carregando bandeira dos EUA em Pequim

Paloma Almoguera Nairóbi, 12 ago (EFE).- Jaoseph Yanga Wani, hoje com 30 anos e que é um dos milhares de foragidos da guerra no Sudão que se refugiaram no campo queniano de Kakuma, se emocionou ao ver na televisão um antigo companheiro, Lopez Lomong, carregando a bandeira da equipe olímpica dos Estados Unidos em Pequim.

EFE |

Em 1988, quando tinha 10 anos, Wani fugiu de seu povoado para evitar ser recrutado pelo Exército Popular de Libertação do Sudão (EPLS), e acabou se tornando um dos fundadores do campo de refugiados de Kakuma, onde conviveu com Lomong, que escapou da milícia que o seqüestrara quando tinha apenas 6 anos.

Mais de dez mil "meninos perdidos" fugiram do Sudão para não virarem "crianças-soldado" em um país assolado por décadas de guerra e no qual o presidente, Omar Hassan Ahmad al-Bashir, foi acusado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) de genocídio na região de Darfur.

Kakuma, aberto em 1989 e mantido pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), é um dos maiores campos de refugiados da África Oriental. Nele, Wani afirmou à Agência Efe que tinha "sentido uma enorme alegria ao ver Lomong nos Jogos Olímpicos": "É como um sonho".

Lomong, que com sua nova nacionalidade vai defender os EUA nos 1.500 metros de Pequim, passou em Kakuma dez anos de sua vida, período em que conheceu Wani e durante o qual ambos, como muitos outros, tiveram que aprender "a viver sem família, se apoiando um no outro".

Os destinos dos dois tomaram rumos diferentes em 2001, quando Lomong se tornou um dos 3.500 refugiados sudaneses recebidos por famílias americanas, graças a um programa conjunto do Acnur e do Governo de Washington.

"No começo, recebíamos muitas cartas deles, mas agora já não sabemos nada", confessou Wani, que não foi selecionado para viver no "segundo paraíso", como ele chama os EUA.

Aos 30 anos, o refugiado continua vivendo em Kakuma, junto com outros 108 "meninos perdidos" sudaneses, cujas histórias foram levadas ao cinema por Megan Mylan e Jon Shenk em 2003, no filme "Os Garotos Perdidos do Sudão".

Segundo Wani, o longa fez com que "alguns emigrantes sudaneses se fizessem passar por 'meninos perdidos', o que paralisou o processo de reinstalação do grupo".

Após muitos pedidos à Acnur para que fossem transferidos para outros países, nenhum dos 109 garotos que permaneceram no campo recebeu uma resposta.

Em declarações à Efe, o responsável pelo Programa de Repatriação da Acnur em Kakuma frisou que "nem todos os solicitantes fazem parte do censo de 10 mil 'meninos perdidos' realizado em 1992", e que, dependendo dos casos, há três soluções: "A repatriação, a integração local ou o reassentamento em outros destinos".

"No Quênia", pondera o encarregado, "a segunda opção é impossível, devido ao fato de a política de integração de refugiados ser quase inexistente".

Milhares de sudaneses foram repatriados desde janeiro de 2005, quando o Governo e os rebeldes assinaram um acordo de paz que permitiu o início de operações de retorno, que continuam acontecendo.

Nas últimas semanas, vários grupos de aproximadamente cem pessoas retornaram de Kakuma para o Sudão, mas Wani não considera essa uma opção, pois não quer voltar ao seu país.

"Seria novo para mim, não saberia por onde começar. Além disso, nunca soube se meus pais foram assassinados ou libertados", assegurou.

O refugiado gostaria de deixar o campo de Kakuma e ir para qualquer lugar onde tenha "uma oportunidade". Além disso, acredita que poderia ser incluído no programa para assistência de refugiados da África, anunciado no último dia 6 pelos EUA.

"Meu programa oferece aos refugiados uma nova vida e um novo começo nos EUA", disse em entrevista coletiva Samuel Witten, secretário de Estado para o Escritório de População, Refugiados e Migração dos EUA na semana passada.

Até agora, Lomong é visto em Kakuma como o principal exemplo do que "significa começar de novo", uma "situação privilegiada" que Wani pôde ver a uma distância de milhares de quilômetros, enquanto seu compatriota e antigo companheiro carregava a bandeira dos EUA em Pequim. EFE pa/bm/sc

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