Sucesso contra crise é mérito de governos FHC e Lula, diz Mendonça de Barros

O economista Luiz Carlos Mendonça de Barros disse à BBC Brasil que o fato de o Brasil ter sido relativamente menos afetado do que outras economias pela crise mundial, e estar saindo dela de uma forma mais rápida, é resultado da combinação de políticas adotadas pelos governos Fernando Henrique e Lula. Na sua opinião, o governo Fernando Henrique teve o mérito de modernizar a economia e entregar a Lula um sistema bancário saneado.

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Ainda na visão de Mendonça de Barros, o petista teria mantido a política macroeconômica da era tucana e a complementado com uma "agressiva política social", responsável por um fortalecimento do mercado interno que teria ajudado o país a enfrentar as turbulências externas.

Para o ex-ministro das Comunicações e ex-presidente do BNDES de Fernando Henrique, a não ser que haja um repique da crise que impeça um crescimento ainda que mínimo das economias do G7, o Brasil pode crescer até 6% no ano que vem.

O quadro, admite, coloca um desafio para a oposição ao candidato de Lula na eleição presidencial de 2010.

"No fundo, a sociedade acaba associando o bem-estar presente ao governo de plantão."

Leia a entrevista abaixo.

BBC Brasil - O governo tem vendido a ideia de que a crise já está superada. O senhor concorda?
Luiz Carlos Mendonça de Barros - Não de uma forma definitiva. Esses dois anos mostraram que as grandes economias estão de alguma forma ligadas entre si. Se a economia americana e a europeia entrarem numa recessão muito forte, é evidente que isso arrasta todo mundo. Agora, se essas economias tiverem um período de crescimento mais fraco, isso faz com que nós não tenhamos crise e possamos depender mais do dinamismo interno.

Eu acho que você pode dividir as economias no mundo em três grupos. Um primeiro grupo, no qual estão o Brasil, a Austrália, a Polônia, de economias que dependem basicamente de sua dinâmica interna: consumo, investimento. Você tem um segundo grupo, de que a China é um exemplo mais claro, que, embora a economia esteja voltada a crescer muito centrada no dinamismo interno, o componente do investimento do governo é muito grande. E o outro grupo, o terceiro grupo, com Estados Unidos, Inglaterra, onde apesar da intervenção do governo ser muito forte, o recuo do setor privado tem uma dimensão tão forte que você ainda não consegue enxergar uma possibilidade de crescimento para a frente. Então o que precisamos é que esse grupo mais frágil, com Estados Unidos e Inglaterra, consiga manter um crescimento por mais medíocre que seja nos próximos anos. Se isso acontecer, a vida dos outros dois grupos fica mais fácil. E o Brasil é claramente uma economia que nesse ambiente vai se dar muito bem porque nós estamos basicamente dependendo da dinâmica interna de consumo e investimento.

BBC Brasil - Então a resposta à pergunta anterior é um sim condicional?
Mendonça de Barros - É. Precisa ter de novo uma crise de certa gravidade no G7 para que a gente não tenha condições de dar continuidade ao crescimento. Se a economia do G7 crescer, mesmo que de uma forma medíocre, eu acho que nós saímos da crise mesmo.

BBC Brasil - A que o senhor atribui o fato de o Brasil estar nessa situação? Às medidas de incentivo do governo, à conjuntura externa ou às políticas fiscal e monetária relativamente conservadoras que já vinham sendo adotadas havia algum tempo?
Mendonça de Barros - Eu acho que o que nós temos claramente é uma combinação de tudo. A mudança no Brasil é tão brusca em relação há dez, 15 anos que as coisas não se explicam por um só fator. Por exemplo, umas das coisas importantes é que, mesmo durante o primeiro mandato de reformas do governo Fernando Henrique, nós nunca embarcamos no tal do Consenso de Washington, nunca embarcamos de uma forma definitiva na ideia de tirar o Estado da economia. No fundo, você teve uma retirada do Estado mais do lado produtivo, através das privatizações e mesmo nas novas regulações via agências você manteve uma importância, presença do Estado. Isso é muito claro na CVM, que é o nosso órgão regulador do mercado de capitais.

Uma outra coisa, o sistema bancário brasileiro tinha passado por uma crise em 1995 e você já tinha feito uma reforma do sistema bancário, estabelecendo critérios rígidos de capital e risco. Nós já tínhamos passado pela crise bancária que aconteceu agora no primeiro mundo e o sistema bancário brasileiro passou ao largo dessa crise.

Outra coisa, uma importante influência nesse dinamismo nosso é o aparecimento da China, quando a economia chinesa começa a ganhar uma certa escala, a demanda de commodities da China começa a afetar o preço das commodities e o Brasil é um dos países mais beneficiados por essa mudança de preço relativo. Então isso deu uma força muito grande para as nossas exportações e o Brasil passou vários anos com um saldo comercial expressivo, que resultou em um acúmulo de reservas, que fez com que o país nesse momento de crise tivesse pela primeira vez uma situação financeira externa extremamente forte.

No passado, uma crise dessas pegaria o Brasil sem reservas, teria levado a uma desvalorização do câmbio muito forte e à inflação. Dessa vez, não.

Um outro fator importante: no governo Lula você teve uma política social bastante agressiva via aumento real do salário mínimo. O salário mínimo no Brasil é muito importante, dois terços dos brasileiros ganham um ou dois salários mínimos. Então, quando você tem um aumento real, você afeta a renda desse pessoal. E o Bolsa Família também, que acabou reduzindo um bolsão de pobreza. Então isso acabou sendo muito favorável para um estímulo de renda aqui no Brasil. Por outro lado, o nosso sistema bancário vinha de uma reforma, de um redimensionamento depois da crise durante o primeiro mandato do Fernando Henrique.

O Brasil sempre foi um país conhecido por uma relação, uma penetração do crédito muito pequena, e nós praticamente dobramos em quatro, cinco anos o volume de crédito por unidade de PIB, o que também, junto com o aumento de renda via o emprego, acabou alavancando o consumidor.

Eu estou convencido que essa combinação de oito anos do Fernando Henrique com oito anos do Lula foi uma combinação muito favorável para nós porque incorporou do governo Fernando Henrique uma visão muito mais de institucionalização, de uma economia mais moderna, regras mais claras. Coisa que certamente o Lula não faria, até por restrições de ordem ideológica e política. E um pragmatismo no governo de Lula, de entender que num país com a distribuição de renda como a brasileira você tem de usar uma política social de fora da economia, isto é, definida pelo próprio governo, para permitir que a redistribuição dos benefícios do crescimento econômico sejam mais rápidos e mais igualitários. Com isso, o Brasil sai desse período com uma classe média muito maior. As estimativas variam, mas se fala em 25 milhões de brasileiros que pertenciam às classes D e E e que hoje pertencem à classe C, que é uma classe média no Brasil.

BBC Brasil - O senhor disse que o governo Fernando Henrique não comprou inteiramente o Consenso de Washington. Mas o governo tem dito que a crise e a forma como ela foi enfrentada mostra que a ideia do Estado mínimo não faz sentido, numa referência ao governo Fernando Henrique, às privatizações...
Mendonça de Barros - É evidente que o governo Lula tem um embate político com o governo Fernando Henrique. No fundo, os dois partidos centrais do espectro político brasileiro são o PT, de um lado, e o PSDB, do outro. Então essa luta política é sempre presente. E é uma coisa engraçada porque hoje o pensamento econômico do PT ou do Lula é muito próximo, para não dizer igual, ao pensamento do presidente Fernando Henrique Cardoso. Eles mantiveram as peças básicas da política macroeconômica: sistema de metas de inflação, superávit primário, chegaram até a fazer algumas privatizações de estradas. Mas toda a vez que se aproxima de um embate eleitoral, o PT procura criar uma imagem de que há diferenças muito grande entre eles. O Lula agora mesmo disse que há uma diferença entre o entreguismo dos tucanos e a sua visão de governo. O que não é verdade.

O PSDB mesmo tinha uma divisão. Tem um lado bem mais liberal, que flertou muito com o Estado mínimo. Mas sempre teve um lado também que tinha um pensamento um pouco diferente em relação ao Estado. E, se você olhar os oito anos do governo Fernando Henrique, fica claro que o que houve foi um reordenamento das funções do Estado, mas não uma retirada do Estado. Mesmo na telecomunicação, que foi privatizada, você tem a agência estatal Anatel, você tem a agência do petróleo. Houve uma modernização da forma como o presidente Fernando Henrique Cardoso via a interligação entre o Estado e a economia privada. O Lula tem um discurso que é muito mais um discurso contra isso do que prática efetiva.

BBC Brasil - Que herança fica para o Brasil desse período de crise?
Mendonça de Barros - Há um ponto importante. Isso mostra que, numa economia como a de hoje, um país como o Brasil precisa ter um volume de reservas cambiais bastante grande, porque uma das coisas que fez diferença é que o governo pôde usar algumas dezenas de bilhões de dólares das reservas para atender ao sistema bancário brasileiro e às empresas que de repente se viram sem nenhum crédito externo.

Uma outra coisa que me parece é que não é ruim ter um pedaço do sistema bancário público, como é o BNDES, o Banco do Brasil, que é um pouco a posição de um grupo dentro do governo Fernando Henrique Cardoso. Havia um grupo que queria desmontar os bancos públicos. O nosso pensamento era o seguinte: não, ele não pode ser totalmente estatizado, porque aí você perde qualquer capacidade de mensuração e eficiência. Agora, você ter um pedaço, um terço, 25% é bom porque numa crise bancária o sistema bancário privado vai tomar uma atitude bem conservadora e você tem o setor público para não deixar a economia de repente sem crédito, que foi o que aconteceu agora. Os bancos estatais aumentaram a sua participação, substituindo o setor privado, com isto você manteve um nível de crédito bastante razoável principalmente quando comparado com outras economias.

E eu acho que uma outra lição é que, na economia de hoje, você tem que deixar a ideologia um pouco de lado. E eu acho que aqui, a experiência nossa, nesses 16 últimos anos, é que nós evitamos a ideologia do Consenso de Washington, de um liberalismo extremado, e evitamos também a ideologia de um PT tradicional, que é intervenção, estatização. Eu acho que uma boa combinação dos dois presidentes foi que tanto o Fernando Henrique como o Lula nunca caíram nessa armadilha de olhar o mundo de uma única forma. O Fernando Henrique sempre manteve no governo uma certa discussão entre essas duas alas e, de certa forma, Lula também fez isso, porque ele tem, sempre teve, primeiro o Palocci, depois o Meirelles, que representavam uma visão da gestão da economia diferente do tradicional do PT. O pragmatismo dos dois presidentes deu frutos aqui no caso brasileiro.

BBC Brasil - E quais sãos os riscos daqui para frente? Pelo que o senhor tem escrito, dá a impressão de que o senhor tem mais preocupação com a inflação do que com o câmbio.
Mendonça de Barros - Não, eu acho que o câmbio é um problema. Mas eu acho que a gente tem de entender qual é o problema do câmbio. Porque as pessoas tendem a olhar o real como era no passado, como uma moeda única: o real está valorizado em relação ao dólar, então eu tenho que intervir. E hoje não é mais isso, a questão hoje não é do real valorizado contra o dólar, mas é um movimento internacional de uma certa fuga do dólar e de uma abertura na carteira dos investidores para outras moedas, já que não existe um substituto único para o dólar.
Com isso, os investidores internacionais construíram uma cesta de umas dez moedas e existe um movimento bastante grande de desvalorização do dólar em relação a essa cesta, e o real está no meio.
O que sempre digo é o seguinte: não adianta querer tratar o real como um caso único. Nós temos de olhar o real dentro dessa cesta. E tentar construir internacionalmente uma saída, porque a minha leitura é que esse processo só vai piorar. Na medida em que vai ficando cada vez mais claro que a economia americana está diminuindo de tamanho relativo dentro do mundo, a pressão sobre o dólar vai continuar e nós vamos sofrer com isso. Eu digo que é um problema, só que é um problema diferente do que as pessoas estão achando que é, simplesmente uma questão de juro alto no Brasil ou de intervenção. Não é.

BBC Brasil - E como se enfrenta esse problema?
Mendonça de Barros - Não sei. Esse que é o problema. Uma das formas que eu tenho dito é o seguinte: o Banco Central teria de estabilizar o real dentro dessa cesta. É uma coisa mais fácil. O que eu não posso é tentar ir contra um movimento internacional, porque aí eu não tenho dinheiro. O único país que eventualmente pode fazer isso e já está com dificuldades é a China. O Brasil não tem condições. Agora, dentro dessa cesta, eu não preciso deixar o real se valorizar mais do que, por exemplo, a moeda australiana, coreana. No fundo, esse mal-estar no mercado de câmbio, que já existe há algum tempo, vai ficar muito sério. Hoje, eu estava vendo, por exemplo, que o won coreano se desvalorizou 40% em relação ao iene nos últimos meses. Isso quer dizer o seguinte: o carro coreano no Japão está 40% mais barato do que o carro japonês. É muito. Isso cria tensões e nós vamos sofrer.

BBC Brasil - Sofrer como?
Mendonça de Barros - Vamos perder competitividade. E aí está acontecendo uma coisa engraçada, porque nas exportações de commodities, nós não temos problema. O real se valoriza, mas no mesmo instante em que o real se valoriza em relação ao dólar, os preços em dólar dos commodities sobem. Então, uma Vale do Rio Doce não tem problema, porque ela está recebendo os mesmos reais. Mas uma empresa que faz um produto industrial está perdendo competitividade. E a indústria manufatureira de exportação ainda é um pedaço importante da nossa economia que não pode ser jogado fora. O Brasil não pode virar simplesmente um país exportador de commodities. Então, esse é um problema sério, que vai ficar para o próximo presidente da República. Não é o Lula que vai tentar enfrentar isso.

BBC Brasil - E a inflação?
Mendonça de Barros - Eu estou falando de inflação de uma outra forma. Antigamente, no Brasil, se falava que a inflação vai passar de 10% para 20% para 30%. Não. Isso não existe mais. O que nós estamos dizendo é que, como a recuperação está muito rápida, você pode ver no ano que vem a inflação fugindo um pouco do centro da meta. Nós estamos olhando aqui no ano que vem, anualizado, na ordem de 5,2 ou 5,3%. Mas é uma diferença em relação a 4,5%, o que vai obrigar o Banco Central a se movimentar em relação a taxas de juro.

Porque a recuperação está muito rápida, a geração de empregos está sendo quase o dobro do que se estimava, vai haver uma pressão sobre salário. Se o governo continuar a dar um aumento de salário mínimo real expressivo, é uma pressão adicional. E você está vendo movimentação sindical bastante grande já na tentativa de, como o mercado de trabalho está muito apertado, buscar um aumento ainda maior. Aí vai dar problema de inflação, não tenha dúvida. E o governo vai ter de jogar um pouco de água fria. Nós estamos prevendo um crescimento de PIB para o ano que vem de 6%. Tudo bem, 6% em relação a um ano em que vai praticamente ser zero não tem grandes problemas. Porque, no fundo, é como se tivesse dois anos de 3%. Mas 2011, em cima de 2010, crescendo 6%, já cria problema. Mas vai ficar para o próximo presidente da República.

BBC Brasil - Falando mais a longo prazo, como o senhor vê a economia brasileira daqui a cinco, dez anos? O governo está falando que nós vamos ser a quinta economia do mundo, que estamos em velocidade de cruzeiro e que agora a coisa vai. O senhor concorda?
Mendonça de Barros - Eu acho que sim, acho que sim. Se não houver nenhum drama no mundo. Se a gente sai dessa crise com esse tipo de crescimento menor no G7, maior nos emergentes, o Brasil pode crescer. E, num exercício de futurologia, se você considerar o Brasil crescendo a 4,5% ao ano de 2010 a 2020, por exemplo, a demanda diária de petróleo no Brasil passa de 2 milhões de barris para 4 milhões. E 4 milhões de barris por dia é um pouco a estimativa de produção da Petrobras com o pré-sal lá em 2020. Então, isso quer dizer que o Brasil não vai virar exportador de petróleo, não.

BBC Brasil - Num cenário positivo como o senhor está traçando, como fica o discurso econômico da oposição para 2010? Vai ser uma tarefa difícil.
Mendonça de Barros - Eu acho que tem de ser um realista: todo esse bem-estar é fruto da combinação de dois governos. Não adianta querer vir com esse discurso "eu é que comecei", não vai pegar. Tem de ser: "olha, isso não é só em função do Lula, do PT". Inclusive, você tem discursos deles no passado... quem mudou de discurso foram eles.

Agora, é muito difícil, porque, no fundo, a sociedade acaba associando o bem-estar presente ao governo de plantão. Agora, pelo menos você tem que lembrá-los, e a eleição tem essa vantagem. O eleitor está disposto a te escutar, principalmente no programa de televisão. Agora, tem que preparar. O PT certamente vem de novo com a questão das privatizações. Você tem de defender com os dados reais. Por exemplo, o IBGE agora no Pnad, mostrou, de 1996 a 2008, a distribuição de telefone no Brasil. Até um salário mínimo, em 1996, antes da privatização, 3% das famílias tinham telefone. Hoje, são 50%. Na faixa de um a três salários mínimos, eram 7% ou 8%; hoje é 80%, 90%. Então você tem de dizer: olha aqui, olha a vantagem da privatização. Agora, no caso de 2006, o candidato, o Alckmin, foi apanhado de surpresa e não soube responder. Mas certamente o Serra terá uma postura completamente diferente. O que eu acho bom, porque vai permitir discutir de uma forma menos demagógica questões importantes.

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