Soweto é símbolo de modernização pré-Copa na África do Sul

A modernização do bairro de Soweto, em Johanesburgo, famoso por ser um bastião da resistência negra durante o apartheid, pode ser considerada um símbolo do rápido progresso vivido pela África do Sul antes da Copa do Mundo de 2010. Se eu pudesse mudar algo por aqui, não saberia dizer o que escolheria.

BBC Brasil |

Provavelmente nada, este lugar é perfeito para se morar", diz a garçonete Neo Molebatsi, 21 anos, que diz sempre ter morado na região.

À primeira vista, a declaração pode causar espanto quando se olham as estatísticas. Entre 40% e 60% dos mais de 3 milhões de habitantes de Johanesburgo moram em Soweto, sendo que a grande maioria vive abaixo da linha da pobreza.

"O segredo de Soweto é que aqui agora temos eletricidade e água encanada, mas os habitantes não perderam o senso de comunidade e solidariedade", diz o analista político Joseph Oesi, ex-morador do bairro. "Aqui é a verdadeira África do Sul."
E a África do Sul conta com Soweto como parte fundamental da Copa de 2010. Dos 10 estádios que vão abrigar jogos, três ficam na região.

Junto com os estádios, o governo vem construindo também parques e playgrounds adjacentes, além de um grande investimento em transporte e reforma das vias de acesso à região.

"Temos que contruir e manter tudo, ruas, semáforos e calçadas no mais alto padrão", diz Kutlwano Ramela, que trabalha para a construtora Khomanani, terceirizada para fazer as melhorias.

"Fomos contratados em 2008 e, dependendo do nosso desempenho, podemos ter o contrato renovado em 2011", diz ele. "É possível que isso tudo acontecesse de qualquer forma, mas a Copa, sem dúvida nenhuma, apressou o processo."
Segurança
Soweto ficou famoso por ter encabeçado várias campanhas de mobilização social, principalmente nos anos 1980, que apressaram o final do regime segregacionista na África do Sul, em 1991.

O bairro foi o lar de dois prêmios Nobel da Paz, Desmond Tutu e Nelson Mandela. Na casa onde este último morou, funciona desde 1997 um museu. Seu curador, Ishmael Mbhokodo, acredita que as benesses trazidas pelo evento de longe compensam eventuais problemas.

"As oportunidades são imensas, de crescimento econômico para todos, desde grandes companhias até artesãos independentes", diz ele. "Temos muitos turistas vindo se hospedar no bairro, que está cada vez mais conectado ao resto da cidade."
Mbhokodo cita o potencial aumento da prostituição como um possível lado ruim da Copa.

No entanto, ele diz não acreditar que o crime, problema crônico do país, possa atrapalhar o Mundial. "Já organizamos várias outras competições internacionais e nunca tivemos problema com o crime", diz ele.

A administradora do Museu Mandela, Bernardeth, concorda e chega a afirmar que "Soweto é o lugar onde me sinto mais segura em todo o mundo".

A duas quadras do museu, a executiva Dombi toma uma cerveja ao sol do entardecer no Nanditha, um bar da região que é considerado da moda e atrai moradores de Johanesburgo. Ela diz concordar com Bernardeth.

"Realmente me sinto muito mais segura aqui em Soweto do que em Johanesburgo", afirma. "Talvez seja porque sou daqui e meus 'irmãos' não me assaltariam aqui. Talvez me roubassem se eu estivesse em outra parte da cidade", diz ela, rindo.

A brincadeira pode ter um fundo de verdade, já que Soweto, apesar de todo o progresso, ainda é um local violento, evitado por muitos moradores de Johanesburgo após o anoitecer.

Mas é visível o senso de otimismo que a Copa do Mundo desperta nos moradores. "Não entendo nada de futebol, mas adoro a Copa do Mundo. Todos ficam mais alegres e unidos", diz Neo, a garçonete do início da reportagem.

"Além disso, vou poder ver muita gente bonita, os jogadores e os turistas", diz, sorrindo.

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