Soldados israelenses denunciam brutalidade e ataques a civis em Gaza

Ana Cárdenes. Jerusalém, 15 jul (EFE).- Mais de 20 soldados israelenses que participaram da última ofensiva na Faixa de Gaza denunciam a brutalidade da força militar empregada, a não distinção entre combatentes e civis e a ausência total de restrições para atirar.

EFE |

A ONG israelense "Rompendo o Silêncio" divulgou hoje os testemunhos de 26 soldados que participaram da operação Chumbo Fundido - ocorrida entre 27 de dezembro de 2008 e 18 de janeiro de 2009 e na qual morreram 1.400 palestinos, em sua maioria civis - para abrir um debate sobre o comportamento do Exército do Estado judeu.

"Se impôs em Gaza, antes de tudo, que as tropas não corressem absolutamente nenhum risco", explica à Agência Efe o diretor desta organização, Yehuda Shaul, um militar da reserva para quem o ocorrido deve ser interpretado à luz da derrota israelense no sul do Líbano em 2006.

Shaul destaca que os testemunhos comprovam a ausência total de regras para o combate, o que resultou em uma liberdade absoluta de muitos soldados para atira contra qualquer palestino.

"Não havia limites. Tudo o que estivesse lá era inimigo", explica Shaul, acrescentando que as instruções em muitos casos foram do tipo "entre e atire contra tudo".

Um dos soldados que fez seu relato de forma anônima corrobora que "as normas eram: atire se quiser". O mesmo militar diz que os comandantes "repetiam o tempo todo que isto é guerra e que na guerra não há restrições para abrir fogo".

Outro militar garante que "não era necessário nenhuma consideração em relação aos civis, disparávamos contra tudo o que víamos. Repetiam para nós que as considerações humanitárias não tinham cabimento. 'Não deixe que a moralidade seja um problema.

Deixe os pesadelos para depois e agora simplesmente atire'".

Um jovem lamenta "o ódio e a alegria de matar" entre as tropas.

"Toda essa destruição, todo esse fogo contra inocentes... Era simplesmente incrível", diz este militar cujo batalhão, explica, era formado por "60 meninos de entre 19 e 20 anos para os quais a vulgaridade e a violência são um estilo de vida" e onde "não havia ninguém para reprimir".

Outro chama o poder de fogo da artilharia israelense de "demente" e reconhece que "estávamos matando inocentes".

"As instruções eram claras: se tem dúvida, mate", declara outro jovem militar, que recebeu instruções de que a ofensiva era "uma guerrilha urbana e, nela, todo mundo é seu inimigo, não há inocentes".

Os combatentes também descrevem a destruição gratuita de imóveis e como "nem uma só casa" ficou intacta.

Um soldado que operou um canhão de tanque no noroeste da Faixa de Gaza garante que, quando tinha que girar e não havia visibilidade, "disparavam 12 bombas contra as casas ao redor e seguiam adiante".

Em duas semanas de ofensiva, ele conta ter disparado 50 bombas, 32 caixas de munição de metralhadora de tamanho médio (mais de sete mil tiros), 20 explosivos de morteiro de 60 milímetros e 300 cargas de metralhadora pesada do calibre 0.5.

"E isso é só um tanque: havia mais de 200", acrescenta Shaul.

Os soldados descrevem a morte de civis em casos facilmente evitáveis, como no de um idoso que foi alvo de tiros quando estava escondido atrás da escada de sua casa.

"Antes de entrar em uma casa, era normal lançar mísseis, atirar com tanques e metralhadoras, jogar granadas. Depois disso, entrávamos", descreve um soldado.

Outros militares israelenses falam do uso dos chamados "Johnnies" ou "escudos humanos": um civil palestino entrava em uma casa para garantir que não havia milicianos dentro.

Alguns soldados destacam, surpresos, o papel do Rabinato Militar e do departamento "Consciência Judia para um Exército Israelense Vencedor", o qual inspirava as forças com expressões como "Não tenha compaixão, Deus te protege e tudo o que fizer está santificado".

Os rabinos disseminaram entre as tropas a noção messiânica de que travavam uma "guerra santa" na qual os "filhos da luz", lutavam contra os palestinos, "filhos da escuridão".

Shaul conclui que, em Gaza, "o Exército israelense abandonou todos os seus valores morais e atuou contra seu próprio código ético", algo que em sua opinião merece ao menos um debate para que a sociedade decida se estas são as tropas que quer ter. EFE aca/bba

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