Soldados de Honduras revistam bolo e barram liquidificador em embaixada

Os soldados que estão bloqueando o acesso à embaixada do Brasil em Tegucigalpa têm feito inspeções rigorosas às poucas pessoas que têm autorização para entrar na representação do país. Eles estão bloqueando a entrada de produtos que julgam ameaçadores e até mesmo fazendo buscas em alimentos, que são farejados por cães.

BBC Brasil |

AP

Soldados ficam de guarda em frente à embaixada brasileira 

Não escapam ao crivo dos militares nem mesmo os integrantes da representação diplomática brasileira ou os familiares do presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, que está refugiado na embaixada, juntamente com sua mulher, Xiomara.
Nos últimos dias, os bolos que foram trazidos por membros da família Zelaya para celebrar o aniversário da primeira dama tiveram de ser cortados em várias fatias e farejados por cães.

Na quarta-feira, sem fornecer explicações, os militares que estão de guarda da primeira barreira militar à embaixada impediram a entrada de um liquidificador.

Colchões barrados

Nos dias anteriores, eles impediram também a entrada de colchonetes e de sacos de dormir, utensílios que teriam sido de grande valia às pouco mais de 50 pessoas que estão alojadas de forma improvisada na representação brasileira.

Há poucos dias, foi barrada a entrada de álcool líquido, um produto que teria papel importante na limpeza do recinto apinhado de gente, mas que foi julgado como suspeito pelas forças militares.

Hortensia, a filha de Manuel Zelaya, conhecida pelo apelido de "Pichu", esteve com seus pais assim que eles entraram na embaixada, mas conta que, desde que decidiu sair para atuar como os olhos e ouvidos de Zelaya no mundo exterior, nem sempre tem tido sorte de conseguir entrar novamente.

Na quinta-feira, ela esteve lá, mas não pode entrar pessoalmente. Apenas deixou as marmitas que trouxe para seu pai e outras pessoas contendo frango, arroz e refrigerantes.

Hortensia disse à BBC Brasil que a situação dentro da embaixada é "um pouco difícil. As pessoas não têm onde dormir. Estão dormindo no chão. Cortaram a água e a luz. Todos têm sido vítimas de provocações constantes. E o problema principal é a animosidade lá dentro e riscos à saúde que eles enfrentam."

A eletricidade e a luz já foram restabelecidos dentro do prédio, mas a embaixada ainda não conta com linha fixa de telefone, que também foi interrompida pelas autoridades hondurenhas. "Temos procurado trazer medicamentos e alimentos, mas nos custa um mundo conseguir entrar. Estão colocando até os cães para farejar a comida. E os militares metem os dedos dentro da comida para ver se há algo dentro. É terrível, mas fazemos o que podemos", contou a filha de Zelaya.

Circulação

Além dos produtos que não estão sendo admitidos, há também restrições à livre circulação de funcionários da própria embaixada ou de integrantes do corpo diplomático brasileiro.

Inicialmente, o Itamaraty pretendia promover uma alternância entre os diplomatas encarregados pela embaixada. O representante comercial, Francisco Catunda, iria revezar-se com Lineu Pupo de Paula, ministro-conselheiro que serve na Organização dos Estados Americanos (OEA) em Washington e que chegou a Tegucigalpa na semana passada.

Catunda possui passaporte diplomático com visto hondurenho e pode entrar e sair livremente da embaixada, mas o mesmo não se aplica a seu colega.

Por conta disso, Lineu Pupo de Paula está desde o dia 30 impedido de sair da representação brasileira. Como o rodízio de embaixadores acabou sendo inviabilizado, Catunda passará os próximos dias trabalhando a partir de casa.

Na quinta-feira à noite, ao deixar o prédio, ele carregava na mão alguns passaportes de brasileiros, que iria entregar pessoalmente, já que atualmente não é possível para simples cidadãos do país entrar na representação brasileira.


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