Sociedade japonesa busca respostas para ataque

O que teria levado um bom aluno, inteligente o suficiente para entrar em uma das escolas mais competitivas de sua vizinhança, a cometer uma série de assassinatos, aparentemente a esmo? Tomohiro Kato, preso depois da série de ataques que deixou sete mortos e dez feridos no último domingo, na hora do almoço, em Tóquio, foi entregue às autoridades e deve receber a pena de morte. Talvez isso seja o que ele queria.

BBC Brasil |

A polícia diz que Kato foi ao bairro comercial de Akihabara para matar pessoas, dizendo que estava cansado da vida.

Os jornais japoneses estão cheios de teorias para explicar os ataques.

Em um artigo, um criminologista diz que Kato é "um sociopata que culpa a sociedade por sua vida instável como trabalhador temporário".

Para o autor, "muitos jovens são egoístas e imaturos e tal violência é uma manifestação disso".

Esse tipo de reação parte do princípio de que o ataque foi resultado de um episódio isolado, e não de um problema maior. Mas será que isso realmente explica o que aconteceu, ou seria a sociedade japonesa parcialmente responsável pelas ações de Kato?
Saúde pública
Para o professor Jeff Kingston, da Universidade Temple, em Tóquio, os casos recentes de jovens enlouquecidos cometendo atos de violência a esmo são um sinal de que o sistema de saúde pública no Japão não oferece apoio adequado para pessoas com problemas mentais.

"Existe um estigma social associado à doença mental", diz Kingston. "Além disso, os médicos relutam em indicar aconselhamento psiquiátrico para os pacientes."
Kato trabalhava em uma fábrica em caráter temporário. A polícia diz que ele estava infeliz e que talvez isso tenha provocado os assassinatos.

Poucos dias antes dos crimes, ele teve um ataque de raiva na frente dos colegas na fábrica porque suas roupas tinham desaparecido. Ele achava que ia ser demitido.

Como trabalhador temporário, Kato não tinha acesso a terapias ou serviços de apoio que talvez estivessem disponíveis a funcionários em período integral.

É provável que ele nunca trabalhasse com as mesmas pessoas com regularidade, portanto, as chances de que alguém notasse algo de estranho em seu comportamento eram poucas.

Hoje, sabe-se que Kato deu inúmeras indicações de que estava em dificuldades, por meio de mensagens colocadas na internet expressando rancor, raiva e alienação. As mensagens, no entanto, eram anônimas.

O professor Hirokazu Hasegawa, psicólogo da Universidade Tokai Gakuin, diz que a decisão de usar a internet para expressar suas frustrações indica que talvez Kato tivesse dificuldade em falar com as pessoas e comunicar seus sentimentos verdadeiros.

Sofrimento adolescente
Hasegawa concorda que o sistema japonês está falhando em ajudar pessoas com problemas mentais. "Não há especialistas suficientes", afirma.

"A chance de alguém com um problema sério ser tratado por um especialista qualificado e, talvez mais importante, experiente, é muito pequena aqui", acrescenta. "É difícil conseguir ajuda de verdade."
O psicólogo também critica o que chama de "sofrimento adolescente" no Japão. Ele argumenta que pais japoneses tratam seus filhos de maneira diferente daquela observada em países como os Estados Unidos ou a Grã-Bretanha.

No Japão, os pais tendem a ver seus filhos como bens, como parte de si mesmos. Como resultado, não os vêem como indivíduos e não respeitam seus direitos como indivíduos.

As crianças têm de pensar como os pais e se comportar de acordo com o que os pais consideram apropriado.

Diante desse cenário, os políticos do país têm sido pressionados para tomar providências para evitar novos ataques do tipo.

O ministro da Educação do Japão, Kisaburo Tokai, diz que estuda a possibilidade de fazer reuniões com "especialistas em ciências do cérebro sobre a situação das crianças no Japão".

Ao mesmo tempo, o país também se pergunta se estaria havendo um aumento da violência no Japão.

Tóquio 'segura'
De acordo com o jornal Asahi, 67 assassinatos casuais foram registrados no Japão nos últimos dez anos - entre três e dez por ano. Em 2007, foram oito. No ano anterior, quatro.

Neste ano, segundo a definição do jornal, cinco ataques do tipo foram registrados. Em três deles, várias pessoas morreram. Nos outros dois, o alvo foi uma pessoa específica. Os cinco casos foram aparentemente aleatórios.

Os números sugerem que a média de crimes casuais cometidos no Japão em 2008 pode resultar bem alta.

Para o jornal Asahi, houve uma mudança nas razões por trás dos ataques casuais ocorridos na última década no Japão. Segundo a publicação, as drogas estavam na origem de crimes a esmo cometidos no passado.

Hoje em dia, é muito mais provável que o motivo seja um ressentimento em relação à sociedade.

Mas o professor Kingston afirma que a nação deveria ser grata às rigorosas leis que controlam o uso de armas no país. "Se Kato tivesse um rifle automático, o caos em Akihabara teria sido muito mais devastador."
O fato, diz o especialista, é que o Japão ainda é muito mais seguro do que outros países do mundo. "Prefiro me arriscar nas ruas de Tóquio do que em Londres, Nova York ou Rio de Janeiro."

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