Sobreviventes do acidente ocorrido no sábado a bordo de um submarino nuclear russo, no qual morreram 20 pessoas, relataram nesta terça-feira os momentos de pânico vividos e denunciaram deficiências como portas bloqueadas e excesso de pessoal dentro da nave.

Segundo testemunhos publicados pela imprensa russa, enquanto uma parte da tripulação dormia, o gás freón liberado acidentalmente pelo sistema antiincêndios do submarino se propagou rapidamente pelo "Nerpa", pegando de surpresa os ocupantes e provocando momentos de pânico.

Os sobreviventes também denunciaram que o "Nerpa", que se encontrava no Mar do Japão realizando testes, tinha muitas pessoas a bordo, que as portas das cabines estavam bloqueadas e que os ocupantes que dormiam estavam muito aturdidos pelo gás para conseguir colocar as máscaras de oxigênio.

"Eu estava descansando depois de ter ficado de guarda. De repente, o gás começou a se expandir. Era como uma droga. Perdi a consciência", contou Viktor Rifk ao jornal Komsomolskaya Pravda em um hospital perto de Vladivostok, base da marinha russa no Pacífico.

A zona é inacessível à imprensa, mas o repórter do jornal conseguiu burlar a vigilância e ter acesso a algumas testemunhas.

"Quando o gás líquido caiu literalmente sobre nós, ouvi um alarme e gritei: Coloquem as máscaras contra gás!", explicou outro tripulante, o engenheiro Serguei Anchakov.

"Alguns foram alcançados em cheio pelo gás freón e morreram no ato. Outros estavam tão desorientados que não conseguiram chegar até às máscaras", acrescentou.

O suboficial Denis Kochevarov explicou ao jornal Izvestia que a catástrofe do "Nerpa", a maior desde o acidente do "Kursk" que, em 2000, causou 118 mortos, poderia ter sido muito maior.

"Primeiro porque ocorreu de dia. À noite teria havido muito mais mortos. Além disso, o freón se expandiu apenas por dois compartimentos e não por todos os seis. É horroroso pensar o que poderia ter ocorrido então".

"Por que houve tantos mortos? Porque as pessoas estavam dormindo e não acordaram de maneira suficientemente rápida, como nosso químico Sacha Prudnikov. A máscara de gás estava pendurada diante dele, mas ele foi contaminado de imediato pelo freón. Sem dúvida, sequer se deu conta de que estava a ponto de morrer", relatou Kochevarov.

Outro oficial, Alexei Chanin, denunciou ao jornal popular Tvoi Den que havia 224 pessoas a bordo, quando a superfície está prevista para 80 ou 90 pessoas. "Inclusive, tínhamos que fazer revezamento para dormir. Tudo aconteceu as 18H05. O sistema de extinção de incêndio começou a funcionar de repente. Derrubamos as portas dos dormitórios para fazer as pessoas saírem. Basta respirar umas duas vezes o fréon para morrer".

O "Nerpa" estava fazendo testes e por isso havia mais de 120 engenheiros e operários dos estaleiros que construíram a nave a bordo dela. Segundo os especialistas, estas pessoas tinham pouco treinamento para os riscos de uma viagem num submarino.

O navio, que deveria ser vendido à Marinha indiana, já havia realizado saídas anteriores, nas quais foram detectados alguns problemas, admtiu Chanin.

Em Vladivostok foi decretado nesta terça-feira um dia de luto.

Em Bolshoi Kamen, para onde voltou o submarino depois do acidente, o governador da região, Serguei Darkin, recebeu os caixões dos mortos e visitou os feridos no hospital.

Bolshoi Kamen, que abriga os estaleiros navais militares, só tem o acesso liberado com uma autorizaçao especial.

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