Sobras de comida são fonte de oportunidades em Washington

Elvira Palomo. Washington, 7 jun (EFE).- A comida que sobra nos hotéis, instituições e colégios de Washington alimenta todos os dias mais de 4 mil pessoas, graças ao programa DC Central Kitchen, que também oferece a centenas de indigentes a chance de se tornarem chefs.

EFE |

A comida é distribuída a lares de amparada, ONGs e associações sem fins lucrativos que repartem os alimentos aos mais necessitados sob a premissa de "combater a fome criando oportunidades", disse à Agência Efe o fundador do grupo, Robert Egger.

Egger, um apaixonado pela música dos anos 70, tinha vontade de montar um bar nos anos 80, mas, ao perceber a quantidade de comida que sobrava nos restaurantes e recepções com a presença de congressistas e personalidades na capital americana, mudou de opinião.

O fundador da iniciativa fala com entusiasmo de um projeto no qual colocou toda sua energia durante os últimos 20 anos.

A DC Central Kitchen "recicla" por dia uma tonelada de comida que é recolhida, preparada e distribuída, em processo no qual a organização não só se encarrega de reparti-la, mas de melhorar a situação dos que a recebem.

"Começamos recolhendo essa comida que sobrava e saímos para distribuí-la uma noite em que chovia. A fila de gente era muito longa, mas, entre eles, vi rostos de homens e mulheres que não eram incapazes de trabalhar, por isso pensei que podíamos fazer algo mais do que dar de comer em uma noite de chuva", lembrou.

Foi assim que começou a maquinaria para encontrar doadores, e pessoas dispostas a recolher a comida e preparar durante a noite para que estivesse pronta para a distribuição na manhã seguinte.

A primeira grande reunião foi a cerimônia de posse do presidente George H.W. Bush em 1989. O fato de o Governo ter doado sua comida a esta iniciativa chamou a atenção da imprensa e deu respaldo à organização.

Desde então, 12 mil voluntários participaram deste projeto, e presidentes, estrelas de cinema, congressistas e embaixadores, entre outros, passaram pela cozinha central.

No entanto, a culinária vai mais além, porque oferece a oportunidade de entrar em um programa intensivo que capacita as pessoas necessitadas como cozinheiros e lhes dá uma profissão com a qual poder voltar a se sentir valorizados.

Nas aulas, há ex-drogados, ex-presidiários, pessoas com alguma doença mental e outros grupos que foram marginalizados pela sociedade, aos quais a cozinha abre uma porta de esperança.

Esta iniciativa não engajou apenas políticos como Bill Clinton, que durante seu mandato esteve duas vezes preparando comida, mas grandes chefs da cidade que participam ensinando o que melhor sabem fazer.

"Os que vêm aqui têm uma vida dura, muitos estiveram por vários anos na prisão, nunca acabaram a escola, nunca acabaram nada, portanto, embora o programa (educativo) dure 12 semanas, é um caminho muito longo para muitos deles", disse Egger.

Durante este curso, além de aprender as práticas de todo bom cozinheiro, também "aprendem a trabalhar em equipe, como ser paciente, como trabalhar concentrado".

A cozinha organizou um serviço de catering que emprega as próprias pessoas que um dia receberam a comida que é reciclada no térreo da maior casa de amparada dos EUA, segundo Egger.

"É algo realmente emocionante ver como as pessoas chegam aqui retraídas e como vão emergindo em 12 semanas, conseguem um trabalho e depois o mantêm", disse.

Setecentas pessoas passaram pelas cozinhas da DC Central Kitchen nos 20 anos que está aberta, e cerca de 400 pessoas mantêm seu posto de trabalho, no mundo da hotelaria.

Entre eles, está Darnell Herndon, um homem de 57 anos que lembrou que chegou ao local há oito anos, após ter perdido o trabalho, a esposa e os três filhos ao entrar no mundo das drogas.

Cozinhar devolveu a vida de Herndon, agora é um dos responsáveis da confeitaria do catering e retomou o contato com os filhos.

"A mais nova tem 23 anos, não sei se eles se sentem tão orgulhosos de mim como eu me sinto deles", diz.

Egger afirma que "60 cidades fazem o mesmo nos Estados Unidos, mas a ideia é que este modelo se estenda a qualquer cidade do mundo", disse. EFE elv/an

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