Sob pressão, Mubarak desiste de disputar reeleição no Egito

Em meio a protestos de mais de 1 milhão no país, presidente egípcio anuncia que deixará o poder após eleições de setembro

iG São Paulo | 01/02/2011 18:17 - Atualizada às 20:50

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No oitavo dia de protestos contra o seu regime, que reuniram mais de um milhão de egípcios em todo o país nesta terça-feira, o presidente Hosni Mubarak anunciou em pronunciamento na TV que não tentará se reeleger nas próximas eleições presidenciais, previstas para setembro, e entregará o poder "de uma forma constitucional" a um sucessor eleito quando seu mandato terminar. "Vou garantir uma transição pacífica. O Egito vai sair mais forte, mais confiante, mais unido e estável dessas circunstâncias difíceis", disse o líder egípcio.

No seu discurso, ele afirmou que sua prioridade era a estabilidade da nação, a fim de permitir a transferência de poder, e que não deixará o país após a eleição presidencial. "O Hosni Mubarak que fala a vocês hoje (terça-feira) está orgulhoso de suas conquistas durante todos esses anos servindo o Egito e seu povo", disse. "Esse é meu país. É onde eu vivi, lutei e defendi sua terra, sua soberania e seus interesses, e eu vou morrer neste território", acrescentou.

Mubarak também prometeu implementar uma série de reformas, incluindo um pedido ao Judiciário para que combata a corrupção, uma das reclamações dos manifestantes, que têm pressionado pelo fim de seu mandato de 30 anos. No discurso que, segundo ele, estava concedendo em um "momento difícil", Mubarak disse que buscará mudanças na Constituição.

As concessões não pareceram aplacar os manifestantes, que tornaram a saída imediata do presidente uma exigência-chave de seu movimento. Ao tomar conhecimento da decisão de Mubarak, egípcios reunidos na Praça Tahrir (Libertação), no Cairo, gritaram "Fora Mubarak!" e "A população quer que o presidente seja julgado". Alguns balançaram sapatos no ar - um profundo insulto no mundo árabe.

O pronunciamento foi feito após informações de que o presidente dos EUA, Barack Obama, disse a Mubarak que ele não deveria concorrer ao quinto mandato, efetivamente retirando o apoio dos EUA a seu principal aliado árabe, de acordo com diplomatas americanos no Cairo e Washington.

Citando uma autoridade americana não identificada, a Associated Press indicou que o recado de Obama a Mubarak foi dado pelo enviado dos EUA ao Cairo, o ex-embaixador no país Frank Wisner, que disse ao líder egípcio que Washington via sua presidência no fim, conclamando-o a preparar uma transição ordenada para uma real democracia com eleições.

A declaração de Mubarak também foi feita um dia depois de o Exército egípcio indicar a retirada de apoio ao líder ao prometer que não usaria a força contra os manifestantes, reconhecendo "a legitimidade das demandas da população" e prometendo garantir "liberdade de expressão".

A desistência de Mubarak foi feita enquanto ocorria o maior protesto no país desde o início das manifestações, há oito dias.

Segundo fontes de segurança do Egito, pelo menos 500 mil manifestantes se concentraram na praça Tahrir. Em Alexandria, a segunda maior cidade do país, de 400 mil a 500 mil foram para as ruas. Em outras cidades, ao menos 110 mil manifestantes, segundo os serviços de segurança.

A praça Tahrir ficou cheia de barracas onde muitos manifestantes passaram a noite de segunda para terça-feira, desafiando o toque de recolher vigente desde sexta-feira e ampliado no sábado. Paralelamente às manifestações, um comitê das forças de oposição egípcias, que inclui o Prêmio Nobel da Paz de 2005 Mohamed ElBaradei, rejeitou o início de qualquer negociação com o regime enquanto Mubarak continuar no poder.

Segundo informações obtidas pela ONU, a repressão aos protestos, iniciados na terça-feira do dia 25, podem ter deixado 300 mortos, mais do que o dobro do balanço anunciado oficialmente até agora, de 125.

Além das manifestações, os opositores pressionaram o governo com uma greve geral iniciada na segunda-feira, em um país que já está praticamente paralisado: a Bolsa e os bancos estão fechados, postos de gasolina estão sem combustível e os caixas eletrônicos estão vazios. Além disso, trens deixaram de funcionar e o último provedor de internet em funcionamento, o Grupo Noor, teve seus serviços interrompidos.

Diálogo

Para evitar o fim do regime, Mubarak fez vários acenos infrutíferos na segunda-feira. Após a declaração do Exército sobre "a legitimidade das demandas da população", propôs pela primeira vez dialogar com os manifestantes, oferta rejeitada pela oposição.

Ainda na segunda-feira, deu posse ao novo governo, substituindo um gabinete que havia sido dissolvido como concessão aos protestos antigoverno. O anúncio foi feito após os sindicatos egípcios convocarem a greve geral no Cairo, Alexandria, Suez e Port Said.

A Irmandade Muçulmana, o grupo de oposição mais influente do Egito, rejeitou o novo governo e pediu que prossiguissem as manifestações para a queda do regime. "A Irmandade Muçulmana anuncia sua total recusa à composição do novo governo, que não respeita a vontade do povo", disse o grupo em um comunicado.

Com AP, BBC, Reuters, EFE e AFP

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