Sob híperinflação, Zimbábue vê preços na casa dos trilhões

Os problemas econômicos do Zimbábue estão obrigando muitos no país a se familiarizar com números gigantescos, na casa dos quatrilhões, quintilhões e sextilhões. Na segunda-feira o governo introduziu a nova nota de 100 bilhões de dólares zimbabuanos (nove zeros) que, no momento, compra dois pães.

BBC Brasil |

A contagem de zeros já se transformou em um pesadelo para bancários e lojistas antes mesmo da introdução da nova nota.

Apenas em 2008 o governo do país devastado pela hiperinflação já lançou notas de 100 milhões, 250 milhões e 500 milhões de dólares zimbabuanos.

Todas elas já perderam o valor e é comum para os zimbabuanos falar sobre suas despesas diárias usando números que avançam pela casa dos trilhões (12 zeros).

A taxa anual de inflação do Zimbábue chegou a 2,2 milhões por cento ao ano, segundo dados oficiais divulgados no meio do mês de julho.

Para muitas autoridades e contabilistas um quatrilhão já é um número comum. Na semana passada o jornal da capital Harare Herald anunciou um prêmio da loteria de 1,2 quatrilhão de dólares zimbabuanos.

Na ocasião, este prêmio era equivalente a US$ 4 mil.

Cortando zeros
O economista zimbabuano John Robertson colocou um gráfico na parede do escritório dando nomes aos números que chegavam ao dobro do trilhão.

E, de acordo com alguns zimbabuanos, outra técnica usada para se familiarizar com as quantias é a de cortar zeros, pois a maioria das calculadoras simplesmente não tem dígitos suficientes.

Caixas registradoras, computadores de bancos e sistemas em geral também estão lutando para lidar com o excesso de zeros na economia.

Como resultado, recentemente os bancos concordaram em cortar seis zeros em transações em documentos.

Para o economista John Robertson, dentro de um mês eles serão obrigados a cortar outros três zeros.

Outra técnica comum para manter os zeros sob controle é pensar em termos de dólares americanos.

De acordo com Robertson, é contra a lei anunciar um imóvel para venda em dólares americanos, mas na prática esta é a moeda usada para grandes compras.

"Nada será escrito e no dia do negócio, o montante será pago em dólares americanos ou convertido para dólares zimbabuanos. Então, você estará tratando de números grandes", afirmou o economista.

Hiperinflação
O Zimbábue é o único país enfrentando a hiperinflação atualmente no mundo, mas os problemas econômicos do país já foram observados em outros lugares e épocas - como o Brasil e outros países latino-americanos entre os anos 1980 e o início dos anos 1990.

Em países que sofrem com a hiperinflação - caracterizada por uma inflação mensal de mais de 50% - o banco central imprime papel moeda em denominações cada vez maiores quando as menores perdem valor.

Na Iugoslávia, por exemplo, a taxa de inflação era de 5 quatrilhões por cento entre outubro de 1993 e janeiro de 1994. O governo foi forçado a introduzir uma nota de 500 bilhões de dinares em 1993.

Na Alemanha, depois da Primeira Guerra Mundial, os preços dobravam a cada dois dias e os trabalhadores recebiam salários diários em pacotes de dinheiro. A nota com maior valor introduzida pelo Reichsbank chegava a 100 trilhões de marcos alemães.

Marcus du Sautoy, professor de matemática na Universidade de Oxford, afirma que "depois de um bilhão, tudo vira um borrão", pois as pessoas têm dificuldades em lidar com números grandes.

"As pessoas estão realmente analisando a relação entre um produto e outro e então é irrelevante quantos zeros existem no final do número", disse.

Se as lojas e bancos não cortam os zeros, então o processo é feito pelo cérebro.

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