Sob aparência de calma, Honduras vive clima de apreensão

O intenso movimento no Mall Multiplaza, um dos maiores shopping centers da capital hondurenha, leva a crer que tudo segue como antes em Tegucigalpa, pouco menos de uma semana após a deposição do presidente Manuel Zelaya. Mas após as 22h, a capital hondurenha, com seus cerca de 770 mil habitantes, mais se parece uma cidade fantasma, sem que se veja um único habitante ou um único veículo circulando pelas suas ruas.

BBC Brasil |

A partir deste horário e até 5h da manhã do dia seguinte, o governo instituiu um toque de recolher, que permite às forças policiais realizar prisões sem acusações formais por mais de 24 horas e que restringe os direitos assegurados pela Constituição de reunião e livre circulação.

Nos últimos dias, as ruas da capital também vêm se alternando em receber manifestações de ativistas a favor do atual governo interino do país ou de defensores do líder deposto, Manuel Zelaya.

Retorno
A população da cidade também aguarda com ansiedade os acontecimentos dos próximos dias, o possível retorno ao país de Zelaya, ou 'Mel', o diminutivo pelo qual ele é conhecido por aqui.

Zelaya foi afastado do poder após um grupo de militares ter invadido o Palácio Presidencial, na manhã do domingo passado, obrigando-o a embarcar para a Costa Rica, ainda de pijamas.

Para muitos, Mel é uma figura polêmica, que cometeu erros, mas sua deposição acabou sendo um equívoco ainda maior do que aquele que ela pretendia remediar.

Para outros, o líder deposto deve retornar ao país, mas para responder pelos delitos dos quais ele é acusado - 18 ao todo, pelas contas do atual governo interino comandado por Roberto Micheletti, ex-líder do Congresso.

As acusações vão de abuso de poder a traição à pátria, motivadas, em boa parte, pela intenção de Zelaya de realizar uma consulta popular para reformar a Constituição e, assim, abrir caminho para uma possível nova candidatura.

A Constituição hondurenha só admite que o líder máximo do país exerça um único mandato de quatro anos.

Sem tranquilidade
''Neste momento, não há tranquilidade. Alguns dizem que Mel voltará, outros que Micheletti é o presidente. Talvez Mel não tenha razão, dizem que ele violou a Constituição, mas seus direitos constitucionais também foram violados. Eu quero paz, democracia e segurança, vinda de ambos os lados. Poder ir trabalhar e me divertir normalmente. Estamos funcionando a meio vapor'', disse à BBC Brasil o vendedor Cris Manzanares.

Yollande Murillo, que trabalha na mesma loja de instrumentos musicais que Manzanares, tem uma visão distinta.

''O país vive um momento de manifestações (políticas), que em nenhum momento foram violentas, exceto pelas promovidas pelos defensores de Mel Zelaya. As manifestações do governo foram feitas em benefício da paz. Quanto a Mel, ele tem que regressar, mas para ser julgado por ter violado a Constituição. O erro do atual governo foi tê-lo deposto sem tê-lo julgado antes.''
Deposição e Chávez
Nesta quinta-feira, o principal assessor jurídico do Exército hondurenho, o coronel Herberth Bayardo Inestroza, admitiu que a deposição de Zelaya constituiu um desrespeito às leis do país, mas defendeu a medida alegando que ela foi tomada a fim de evitar ''derramamento de sangue''.

Em entrevista ao site noticioso salvadorenho El Faro, disse que o Exército acabou não tendo alternativas a não ser a de depor Zelaya, visto que ele os vinha pressionando a descumprir a legislação do país ao pedir que os militares colocassem em prática a consulta popular com vistas à reforma da Constituição.

O coronel acrescentou que para os militares do país é impossível manter relações com um governo de esquerda e considera igualmente impossível que Zelaya volte ao país.

''Se é inteligente, não vai regressar a Honduras. Já Chávez (o líder venezuelano, Hugo Chávez) disse que não viria a Honduras e disse por que, e vocês sabem muito bem - porque tinha medo de ser vítima de um franco atirador."
Chávez foi um dos maiores defensores da recondução de Zelaya à liderança do país e chegou a ameaçar enviar tropas para Honduras para trazer o presidente deposto de volta à presidência.

Indagado se os supostos temores de Chávez de ser vítima de um franco atirador hondurenho são fundamentados, o militar afirmou: "Ele tem por que ter medo, claro. Porque faltou com respeito a todos nós. Nos chamou de gorilas e coisas assim. Não entendo como um golpista pode ter moral para insultar alguém".

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