Sob ameaça de grande protesto, líder egípcio anuncia novo governo

Opositores prometem marcha de 1 milhão na terça, enquanto sindicatos convocam greve geral e dezenas de milhares mantêm protestos

iG São Paulo |

O presidente egípcio, Hosni Mubarak, deu posse a um novo gabinete nesta segunda-feira, substituindo um governo que havia sido dissolvido como concessão a protestos antigoverno sem precedentes. O anúncio foi feito após os sindicatos egípcios convocarem uma greve geral no Cairo, Alexandria, Suez e Port Said e após dezenas de milhares de manifestantes continuam reunidos na praça Tahrir, no centro do Cairo, cercados por tanques do Exército e desafiando o toque de recolher imposto pelo governo.

Além disso, o Movimento 6 de Abril, grupo de oposição que iniciou os protestos populares do Egito, está convocando para terça-feira manifestações maciças nas quais espera reunir 1 milhão. "Queremos fazer com que seja como um carnaval, com música, canções, poesias e espetáculos, tudo centrado em pedir a renúncia de Mubarak", disse o porta-voz do movimento sob condição de anonimato.

Segundo representantes da oposição, os protestos, que entraram no sétimo dia e já deixaram mais de cem mortos, continuarão até que haja uma ampla reforma política e econômica no Egito.

Na modificação mais significativa do gabinete, o ministro do Interior - encarregado das forças de segurança internas - foi substituído. Um general de polícia reformado, Mahmoud Wagdi, foi nomeado no lugar de Habib el-Adly, que é amplamente rejeitado pelos manifestantes pela brutalidade mostrada pelas forças de segurança.

Ainda assim, é improvável que o novo gabinete satisfaça dezenas de milhares de manifestantes que saíram às ruas em todo o Egito na semana passado para exigir a queda de Mubarak e de todo o seu regime. Quando Mubarak anunciou na sexta-feira a dissolução do governo anterior e nomeou seu chefe de inteligência, Omar Suleiman, como vice-presidente , os manifestantes rejeitaram a medida a qualificando como uma tentativa de Mubarak, que governa o Egito de forma autoritária há 30 anos, para manter-se no poder.

A nova formação ministerial anunciada na televisão estatal incluiu autoridades leais ao regime de Mubarak, mas não mantém vários empresários proeminentes que tiveram postos econômicos e idealizaram as políticas de liberalização econômica das últimas décadas. Muitos egípcios se ressentem da influência dos milionários magnatas-políticos, que eram aliados próximos do filho do presidente, Gamal Mubarak, muito tempo considerado seu herdeiro político.

No novo gabinete, Mubarak manteve seu ministro da Defesa de longa data, Field Marshal Hussein Tantawi, e o chanceler Ahmed Aboul Gheit. O ministro há mais tempo no gabinete, o titular de Cultura Farouq Hosni, foi substituído por Gaber Asfour, uma figura literária amplamente respeitada.

O mais famoso arqueológo egípcio, Zahi Hawass, foi nomeado para o Ministério de Antiguidades, um novo posto.

Manifestações no Cairo

Milhares de egípcios continuam nesta segunda-feira no coração do Cairo para exigir a renúncia de Mubarak, no sétimo dia de manifestações contra o líder, no poder desde 1981. A Praça Tahrir, símbolo dos protestos dos últimos dias, segue sob forte proteção das tropas do Exército, apesar de a polícia ter voltado à cidade para restabelecer o trânsito e a ordem.

AP
Manifestantes protestam no Cairo, Egito
Os militares se mantêm afastados do centro da praça e só estão em seus acessos, ao contrário do que acontecia nos dias anteriores, quando os tanques circulavam pelo meio da Tahrir (Libertação, em árabe). As ruas de acesso estão interrompidas por tanques e cercas, e os soldados revistam as bolsas e, em alguns casos, pedem os documentos de identidade daqueles que se aproximam do local.

Nessa região não se vê a polícia egípcia, que retornou nesta segunda-feira à capital após dois dias de ausência para reassumir a defesa da segurança pública, que foi deteriorada pelos atos de vandalismo e pela fuga de inúmeros presos.

No domingo, uma troca de tiros deixou 50 mortos, incluindo presos e policiais, na prisão de Abu Zahal, no norte do Cairo, durante a fuga em massa de 2 mil detentos, informou nesta segunda-feira o jornal oficial "Al-Ahram".

Segundo a publicação, que não cita fontes, vários familiares de presos chegaram mascarados em caminhões sem placas à cadeia e derrubaram o muro, enquanto os detentos iniciavam um incêndio dentro da penitenciária.

Todos os ocupantes da prisão, estimados em 2 mil, fugiram do local, segundo o jornal, que acrescentou que entre os parentes dos reclusos havia beduínos da Península do Sinai, que quando se deslocam pelo deserto costumam carregar armas.

Na prisão de Wadi el Natrun, uma das maiores do país, que fica no caminho entre o Cairo e Alexandria e acolhe cerca de 11 mil detentos, a polícia capturou cerca de 200 presos que haviam fugido, informou nesta segunda-feira a emissora de televisão estatal egípcia.

No domingo, milhares escaparam das cadeias egípcias, alguns após enfrentar policiais e outros após destruir a prisão onde se encontravam. No entanto, segundo fontes oficiais, 2.096 foram recapturados.

Aparentemente, na cidade de Alexandria, a fuga desses presos teve como consequência o desaparecimento de cerca de 20 mil armas, que se suspeita estarem em poder dos fugitivos.

*Com AP, BBC e AFP

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