Singh substitui ministro do Interior e evita acirrar tensão com Paquistão

Julia R. Arévalo.

EFE |

Nova Délhi, 30 nov (EFE) - Pressionado a adotar medidas "exemplares" após os ataques a Mumbai, o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, destituiu hoje o ministro do Interior, Shivraj Patil, mas evitou instigar as tensões com o vizinho Paquistão por sua suposta responsabilidade pelos atentados.

Patil "assumiu a responsabilidade moral" pelos ataques terroristas a Mumbai, nos quais pelo menos 195 pessoas morreram e mais de 300 ficaram feridas, e "decidiu renunciar", informou a porta-voz do Partido do Congresso, Jayanti Natarajan, horas antes de um comunicado da Presidência da Índia confirmar a destituição.

Um porta-voz do Governo desmentiu versões de fontes oficiais divulgadas pela imprensa indiana segundo as quais o conselheiro de Segurança Nacional, M.K. Narayanan, também teria renunciado.

Após a saída do ministro do Interior, são esperadas mais demissões no Governo central e no do estado de Maharashtra, cuja capital é Mumbai, apesar de as autoridades estaduais estarem resistindo a serem "sacrificadas".

Para o Governo de Singh, que enfrentará eleições em 2009, a onda de atentados sofrida este ano pela Índia e a desaceleração da economia no contexto da crise internacional podem ter um efeito devastador.

Além disso, Singh anunciou hoje a ampliação da principal força antiterrorista do país e a criação futura de uma Agência Federal de Investigação para coordenar a luta contra o terrorismo.

O chefe do Governo expôs estas medidas no começo de uma reunião com líderes das forças políticas do país, aos quais pediu unidade frente à "ameaça nacional" do terrorismo após o massacre de Mumbai.

Pelo menos 195 pessoas morreram e mais de 300 ficaram feridas nos atentados cometidos por um grupo islâmico que gerou pânico ao centro financeiro da Índia durante três dias.

Os atentados a Mumbai se somam aos sofridos nos últimos seis meses em Nova Délhi, Jaipur, Bangalore, Ahmedabad e a Embaixada da Índia em Cabul, nos quais 200 pessoas morreram.

Singh convocou hoje para uma reunião os líderes dos principais partidos do país, aos quais anunciou medidas de reforço da luta antiterrorista para exigir deles "unidade" diante da "ameaça nacional" que representa o terrorismo, segundo o comunicado oficial.

À reunião, na qual o ministro das Finanças indiano, P.

Chindambaran, participou como novo titular do Interior - Singh acumulará o comando da economia -, não compareceu o líder do Partido Bharatiya Janata (BJP, Partido do Povo Indiano), Lal Krishna Advani, segundo a rede "NDTV".

O atentado em Mumbai "é negligência coletiva de todo o Governo. A responsabilidade também deveria ser coletiva e nenhum Governo deveria ter direito a sobreviver após algo assim", declarou o também líder do BJP Rajnath Singh, para quem a demissão de um ministro "não é suficiente" e acontece "tarde demais".

O ataque contra Mumbai "é horrendo, e o Governo o leva muito a sério. É um ataque intolerável à soberania indiana", afirmou a porta-voz do Partido do Congresso após anunciar a saída de Patil.

A Índia acusou dos ataques o grupo separatista Lashkar-e-Toiba, com base no Paquistão e que luta pela independência da Caxemira, onde hoje aconteceu a terceira fase de votação para a Assembléia local, boicotada pelos independentistas.

A cadeia "NDTV" informou hoje que o Governo indiano chegou a cogitar o rompimento do diálogo com o Paquistão e do cessar-fogo em vigor desde 2003 na Caxemira como medida de resposta ao atentado a Mumbai, assim como das poucas comunicações ferroviárias e aéreas entre os dois países.

No entanto, o porta-voz do Ministério de Assuntos Exteriores indiano, Vishnu Prakash, desmentiu pouco depois essa versão, e fontes do Governo citadas pela "NDTV" destacaram que a Índia acusou "elementos" provenientes do Paquistão pelo atentado, e não o Executivo paquistanês, embora não o tenha isentado completamente.

"Essas histórias fazem parte de um plano do Paquistão para criar a impressão de que a Índia está agindo impulsivamente e destruindo o diálogo, enquanto o Paquistão faz o possível para manter o processo de paz em andamento", disse Prakash à agência "Ians".

Índia e Paquistão já travaram três guerras desde a independência dos dois países, em 1947.

A última grande crise entre os dois países com armas nucleares que levou a uma escalada da tensão bélica na fronteira comum ocorreu no final de 2001 por causa de um atentado contra o Parlamento de Nova Délhi, quando o BJP estava à frente do Governo.

O Executivo do Paquistão - cujo primeiro-ministro, Yousuf Raza Gillani, cancelou hoje uma viagem ao exterior - deixou claro seu mal-estar com as acusações indianas.

A imprensa paquistanesa divulgou hoje revelações de altos comandantes militares segundo os quais o Paquistão advertiu Estados Unidos e União Européia (UE) de que se a Índia continuar com suas acusações, o Exército paquistanês transferirá à fronteira indiana as tropas desdobradas na região tribal na fronteira com o Afeganistão.

EFE ja/wr/db

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