Shannon ajudará a aprimorar relações entre EUA e Brasil, dizem analistas

O novo embaixador americano no Brasil, Thomas Shannon, é alguém que conhece bem a realidade brasileira, que reconhece a importância internacional do país e que poderá contribuir para a intensificação na relação entre Estados Unidos e Brasil, dizem analistas ouvidos pela BBC Brasil.

BBC Brasil |

Shannon foi indicado oficialmente para o cargo na quarta-feira pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

Atualmente, ele é o secretário-assistente para Assuntos do Hemisfério Ocidental - o mais alto cargo no Departamento de Estado para a região das Américas.

O novo representante americano irá substituir a Clifford Sobel, que está à frente da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília desde 2006.

"A indicação dele provavelmente levará a um aprimoramento nas relações (americano-brasileiras). Ele conhece muito bem o Brasil, gosta do país e reconhece a sua importância'', afirma James Ferrer, diretor do Centro de Temas Latino-Americanos, da George Washington University, situada na capital americana.

Ferrer serviu ao lado de Shannon na Embaixada dos Estados Unidos em Brasília, quando o futuro representante americano no Brasil atuou como assistente especial do então embaixador entre 1989 e 1992.

Ferrer descreve o ex-colega como alguém que "faz parte daquela ala do Departamento de Estado que acha que o governo precisa passar mais tempo em grandes países que exercem um importante papel internacional e menos tempo em países que são muito pequenos, mas que chamam atenção só porque causam problemas".

Cooperação

O analista acredita que, com Shannon, os dois países poderão intensificar sua cooperação no setor energético. As duas nações possem um acordo para compartilhar tecnologias em biocombustíveis e realizar parcerias em outros países do Hemisfério Ocidental.

Ferrer acrescenta que as duas nações poderão atuar conjuntamente para fortalecer o papel da Organização de Estados Americanos (OEA) na promoção da democracia na região.

Ele acredita ainda que, com novo representante, os EUA acabarão colocando pressão sob os brasileiros para que estes exijam que Cuba, por exemplo, adote reformas democráticas.

"Ele (Shannon) deverá levantar o tema em algum momento, porque é um tema essencial para os Estados Unidos, assim como foi o acordo de biocombustíveis, no qual ele teve papel ativo. Então, este será um tema com qual ele deverá lidar, mas o fará não de forma agressiva, impositiva'', disse Ferrer.

'Coringa'

Melvyn Levitsky, embaixador em Brasília durante a gestão de Bill Clinton, de 1994 a 1998, acredita que o cargo precisa de alguém que "compreenda o Brasil e que fale a língua da diplomacia pública". "Creio que é assim que Thomas Shannon trabalha", disse Levitsky.

Atualmente, Levitsky é professor de Política e Prática Internacional do Gerald R. Ford School of Public Policy, da Universidade do Michigan.

Ele afirma que o embaixador americano no Brasil precisa ser um "coringa", capaz de atuar em diferentes frentes, porque "a relação entre os dois países é complexa e porque o Brasil conta com um papel tão importante no cenário internacional".

"Os dois países precisam um do outro, se veem como parceiros econômicos, mas a relação exige uma grande dose de gerenciamento diário, até no sentido de administrar a imagem de como a imprensa brasileira nos cobre. Tudo o que você faz ou diz é submetido a uma lente de aumento. Se você comete enganos, isso acaba sendo transformado em algo pior", afirma Levitsky, citando um exemplo pessoal.

"Creio que não fui o embaixador mais popular, porque sempre falava o que pensava. Fui entrevistado pela (revista) Veja e indagado o que faria para tornar a relação entre os dois países mais amigável. Respondi que este não era o meu trabalho, que minha tarefa consistia em promover os interesses americanos. Promover os interesses brasileiros, disse eu, era tarefa do embaixador brasileiro. Isso causou um grande escândalo", recorda.

"Mas, então (o ex-presidente e atual líder do Senado) José Sarney, que eu conhecia desde o período em que ele governou o Maranhão, escreveu um artigo na Folha de São Paulo dizendo: 'o embaixador está certo. Espero que esta seja a mesma abordagem de nosso embaixador em Washington'. Mas poderíamos ter feito um trabalho melhor em diplomacia pública'', acrescenta.

Levistky diz que o posto de embaixador no Brasil vai além de procurar interagir apenas com o governo federal.

"Você precisa dar entrevistas sempre que exigido, ter boas relação com o Congresso, que é muito influente, e com diferentes prefeitos. Por isso, é importante sair de Brasília", disse ele à BBC Brasil.

"É um trabalho muito ativo. O embaixador sempre conta com um vasto cardápio", conclui o ex-embaixador.

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